Melhor filme do Wes Anderson?

Polls de filmes e outras questões relacionadas com cinema.

Moderadores: mansildv, waltsouza

Melhor filme do Wes Anderson?

Bottle Rocket (1994) - curta
0
Sem votos
Bottle Rocket (1996)
1
7%
Rushmore (1998)
2
14%
The Royal Tenenbaums (2001)
3
21%
The Life Aquatic with Steve Zissou (2004)
0
Sem votos
Hotel Chevalier (2007) - curta
0
Sem votos
The Darjeeling Limited (2007)
0
Sem votos
Fantastic Mr. Fox (2009)
1
7%
Moonrise Kingdom (2012)
0
Sem votos
Castello Cavalcanti (2013) - curta
0
Sem votos
The Grand Budapest Hotel (2014)
4
29%
Come Together: A Fashion Picture in Motion (2016) - curta
0
Sem votos
Isle of Dogs (2018)
2
14%
Não aprecio os seus filmes!
1
7%
 
Total de votos: 14

mansildv
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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » abril 29, 2018, 6:44 pm

Revi hoje o The Royal Tenenbaums! É sempre um prazer ver este filme, personagens excêntricas num universo muito próprio, realizado na perfeição pelo Wes Anderson :wink:

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » abril 30, 2018, 10:36 pm

O Isle of Dogs é absolutamente fabuloso, mais um filme genial do Wes Anderson :shock: :-)))

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » maio 1, 2018, 10:18 am

O Wes Anderson celebra hoje 49 anos, vamos preencher a poll! :wink:

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » maio 1, 2018, 10:10 pm

Terminei agora de rever o The Darjeeling Limited, outro filme fabuloso do realizador yes-)

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » maio 2, 2018, 9:58 am

Ontem vi a curta Bottle Rocket que apesar de ser interessante não tem aquela essência da obra do Wes Anderson!

https://www.imdb.com/title/tt0109322/

Vale a pena por ser o início de uma excelente filmografia :wink:

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 19, 2018, 1:33 pm

O meu próximo projecto cinéfilo é passar em revista os filmes do Anderson.

Neste momento, e com aquilo que tenho retido de visualizações passadas, as notas estão assim distribuídas:

Rushmore - 8/10 (após revisão, 8/10)
The Royal Tenenbaums - 9/10 (após revisão, 10/10)
The Life Aquatic... - 7/10 (após revisão, 5/10)
The Darjeeling Limited - 7/10 (após revisão, 8/10)
Moonrise Kingdom - 9/10
The Grand Budapest Hotel - 10/10

(pelo meio quero ver se apanho uns fotogramas coloridos, à laia de "polaroids", para colar na parede do blog... :mrgreen:)
Última edição por Samwise em setembro 2, 2018, 10:14 am, editado 2 vezes no total.
«The most interesting characters are the ones who lie to themselves.» - Paul Schrader, acerca de Travis Bickle.

«One is starved for Technicolor up there.» - Conductor 71 in A Matter of Life and Death

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » maio 19, 2018, 7:10 pm

Samwise Escreveu:
maio 19, 2018, 1:33 pm
O meu próximo projecto cinéfilo é passar em revista os filmes do Anderson.
Excelente iniciativa yes-) Vai partilhando a experiência à medida que vês os filmes :-)))

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por mansildv » maio 19, 2018, 7:23 pm

Penso que vais gostar dos fabulosos Fantastic Mr. Fox e Isle of Dogs :wink: e se puderes vê o seu filme de estreia, o Bottle Rocket, é simples mas vale a pena :wink:

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Gaspar Garção » maio 19, 2018, 9:53 pm

Atenção á promoção dele na fnac online, hoje mandei vir o Senhor Raposo, o único que me faltava (tenho o Bottle Rocket de região 1)!!!!

https://www.fnac.pt/n1142222/Filmografi ... FilmesARBO
Na baliza Jackson, defesa com Scorsese, Coppola, Spielberg e Eastwood. No meio campo, Ridley Scott, Wes Anderson, Pollack e Carpenter. Avançados, Woody, e solto nas alas Tarkovsky. Suplentes: Bunuel, Fellini, Kurosawa, Visconti, Antonioni, Lynch e Burton.

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 20, 2018, 11:10 pm

mansildv Escreveu:
maio 19, 2018, 7:10 pm
Samwise Escreveu:
maio 19, 2018, 1:33 pm
O meu próximo projecto cinéfilo é passar em revista os filmes do Anderson.
Excelente iniciativa yes-) Vai partilhando a experiência à medida que vês os filmes :-)))
Como são poucos filmes (não se trata da obra de um Woody Allen ou um Ingmar Bergman), creio que é uma iniciativa que vou conseguir levar até ao fim. :twisted:

A ideia é no final ter matéria para escrever um curto texto introdutório ao cinema do Anderson, em conjunto com alguns fotogramas "bonitinhos" que irei captar.

Vou escrever notas desta vez, à medida que for vendo os filmes, algo que para mim também vai ser novidade, já que nunca tentei nada do género. Vou partilhando algumas reflexões à medida que for vendo os filmes, e em jeito de notas de rascunho.

mansildv Escreveu:
maio 19, 2018, 7:23 pm
Penso que vais gostar dos fabulosos Fantastic Mr. Fox e Isle of Dogs :wink: e se puderes vê o seu filme de estreia, o Bottle Rocket, é simples mas vale a pena :wink:
Sim, tenciono ver o Bottle Rocket. Já agora, esse filme, que é de 1996, é o desenvolvimento de uma curta de 1994 que está disponível no youtube:

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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 21, 2018, 11:33 am

Nesta curta vejo logo uma das imagens de marca do realizador: uma personagem que é um "planner" (um agente da "Ordem"), alguém com uma compulsão por esquematizar e planear tudo e mais alguma coisa, que está sempre a tentar impor as suas ideias aos outros, e que leva depois grandes banhos de frustração quando esses outros (os agentes do "Caos", ou apenas simples pessoas que seguem as suas próprias vontades) não ligam nenhuma, ou furam os planos à primeira oportunidade. Há uma ou várias personagens destas em todos os filmes que vi dele, normalmente numa posição de grande importância para a narrativa.

A curiosidade aqui é que nem ele próprio (Owen Wilson) se mantém fiel ao seu plano, já que no primeiro assalto rouba uma peça que tinha planeado ficar de fora.

Estou curioso para ver agora o filme, e de que forma se relaciona com a curta.
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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 22, 2018, 12:58 pm

mansildv Escreveu:
maio 19, 2018, 7:23 pm
... e se puderes vê o seu filme de estreia, o Bottle Rocket, é simples mas vale a pena :wink:
Completei a Primeira Etapa do "projecto WA" ( :mrgreen: ) com a visualização do seu magnífico filme de estreia.

Imagem

Compreendo perfeitamente as razões que o tornaram na altura (e tornam ainda hoje) um produto polarizador, gerando apreciações extremas para um lado e para o outro (o Anderson refere numa entrevista que na sessão de estreia "oficial", havia grupos de espectadores a saírem da sala durante a projecção). Entretanto, com o passar do tempo e com a sua ascensão ao mundo dos "grandes realizadores", o filme tornou-se numa obra de culto.

Este deve ser uma das melhores primeiras obras realizadas por um cineasta de relevo. Acho que ele nunca mais conseguiu nada de tão cristalino, puro, espontâneo e "honesto" na fórmula de representação da inocência das suas personagens, e na sua postura perante a vida, o mundo e "os amigos".

Este filme é um diamante em bruto - ao mesmo tempo um salto de gigante em relação à curta que o antecedeu (e que lhe serviu de génese), e um projecto embrionário onde encontramos referências a muitas características futuras definidoras do seu cinema, ainda que aqui sem aquele polimento lustroso e tecnicamente muito apurado.

Nunca gostei muito do Owen Wilson enquanto actor (acho-o limitado e bastante "canastrão", misto de "good looks" & "lots of bullshit"), mas neste filme está adequadíssimo ao papel (sendo que ele também escreveu o argumento em conjunto com o Anderson).

É uma comédia bastante divertida (para quem gostar deste tipo de humor, obviamente), com diálogos e situações delirantes, e um punhado de sequências que deveriam figurar na história do cinema pela forma como retratam as relações e as emoções humanas (algo que penso que já esteja assegurado, dado o estatuto do Anderson neste momento) - e que é, basicamente, pelo ponto de vista de uma criança. As 3 personagens centrais são adultas, mas têm a mentalidade de crianças, literalmente. A forma como abordam a vida e como se comportam perante o futuro incerto parte sempre desta base (muita inocência e um completo estado de ignorância face aos mecanismos que regem o mundo dos adultos, muita bondade/benevolência/alegria, um espírito de aventura e um optimismo desmesurados que levam por sua vez à elaboração de planos mirabolantes e irrealistas, uma adoração por gadgets e ferramentas - que cumprem a função de brinquedos, muita fé/crença nas qualidades próprias e nas força da amizade para as levar a cabo, e uma resiliência e coragem inabaláveis face às adversidades, e alterações súbitas do estado de espírito que variam entre birras repentinas e um esquecimento completo logo a seguir). Esta assimilação "inocente" do mundo por parte das personagens-criança (em que as crianças que surgem nos filmes são frequentemente mais maduros e inteligentes do que estes adultos-criança) é outra vincada marca de autor do Anderson ao longo da sua filmografia. Há um outro Anderson de grande relevo no cinema contemporâneo, o Paul Thomas, que também lançou uma primeira obra imponente em 1996, e se quisermos fazer uma comparação marota entre dos dois, podemos dizer que enquanto um brinca com bonecos Playmobil, o outro dedica-se à exploração de poços de pretróleo...

O filme aborda várias temáticas - a amizade, o amor, os valores de família, a passagem à idade adulta (que neste caso não chega a ocorrer, porque eles permanecem crianças no final da viagem :-))) ) - num vago contexto de crime. Eles são auto-aprendizes de assaltantes (rookies que sonham com "o grande assalto"), começam por roubar a casa da mãe de um deles para praticarem, e a partir daí tentam golpes cada vez maiores.

Para mim é um 10 directo, com todas as imperfeições e superfícies rugosas incluídas (fazem parte do encantamento e da pureza...). Não me espanta que o Scorsese o tenha considerado com um dos 10 melhores filmes dos anos 90. Em boa altura decidi pegar na filmografia do Wes Anderson - porque não tinha ligado nenhuma a este filme anteriormente.

--- Notas adicionais
- O "master schemer" Racional (Owen) vs o Emotivo e impulsivo (Luke)
- O mundo é um caos e necessita de ser "racionalizado", através de regras estruturantes e planeamento minucioso
- Traços de Road Movie / Heist movie (o golpe final é o mais divertido e desastrado falhanço da história do cinema)
- Vida = sequência encadeada de jogos e brincadeiras.
- Não interessa o sucesso dos projectos, interessa viver a experiência (o "sacrifício" final é uma prova)
- Bottle Rocket = pirotecnia - diversão, liberdade, rebeldia, "joi de vivre" contagiante
- As armas são brinquedos - eles não medem as consequências. Compram as maiores e mais barulhentas porque "é giro". Não medem, ou não sabem medir as consequências de nada - arriscam em demasia, e arriscam com entusiasmo.
- Inversão de mentalidades: crianças vs adultos (até os mais velhos - a personagem do Caan recebe-os com uma brincadeira infantil)
- Losers/falhados, inúteis
- Obra sobre a inocência, mas tem um lado negro perturbante (familia disfuncional, armas, bullying, espancamentos)

--- Noah Baumbach entrevista Wes Anderson - conversa sobre o Bottle Rocket:



--- UM ARTIGO assinado por Martin Scorsese sobre este filme
e UM ARTIGO assinado por James L. Brooks contando um pouco da história "behind the scenes"...
Última edição por Samwise em maio 24, 2018, 6:17 pm, editado 1 vez no total.
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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 23, 2018, 1:07 am

Durante a captura dos primeiros fotogramas deparei-me com um pormenor engraçado. Não tinha dado conta quando vi o filme, mas a determinada altura, e por breves segundos, vê-se um quadro com uma fotografia do Comandante Jacques Cousteau numa parede. :-)))

Imagem

Uns anos mais tarde, a personagem interpretada pelo Bill Murray no filme The Life Aquatic with Steve Zissou é fortemente inspirada no Cousteau, e no filme seguinte, o Rushmore, há um livro escrito pelo Comandante que desempenha um papel importante na narrativa, bem como uma fixação de uma das personagens por peixes e temas marinhos...
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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 23, 2018, 1:17 am

Mais alguns fotogramas:

Imagem
Duas marcas de autor, ainda muito ao de leve: a compulsão por "fazer planos", e os enquadramentos "de cima", focando objectos do dia-a-dia, neste caso um caderno anotado, com caligrafia alinhada e colorida. A caligrafia vai se objecto de muitas abordagens futuras, e funciona como uma componente reveladora do carácter na construção psicológica de personagens.

Imagem
Irmãos na vida real, amigos inseparáveis no filme, onde compõem uma família "não-biológica".

Imagem
Testando armas, para utilizar em futuros assaltos, como meio de intimidação. Na verdade, são crianças a brincar. As armas são uma fonte de fascínio.

Imagem
Outra marca de autor: a geometria urbana e os compartimentos - o apuramento da estética visual vai tornar este aspecto como central.

Imagem
Romance looms..

Imagem
I wish you happiness

Imagem
Uma discussão sobre regras quebradas leva a uma cena de pancadaria dentro do bar.

Imagem
Parting brothers after lines crossed.

Imagem
Mais um brinquedo.

Imagem
A equipa e a fatiota para o assalto final. As cores - outra marca de autor que será explorada até quase ao delírio na obra futura.
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Re: Melhor filme do Wes Anderson?

Mensagem por Samwise » maio 24, 2018, 1:07 pm

Segunda Etapa concluída, e revisto o segundo filme do Fantástico Sr. Anderson, o Rushmore, título que em Portugal foi agraciado com uma das mais infelizes traduções de que há memória (suplantado apenas no caso recente de Bone Tomahawk): "Todos Gostam da Mesma". O título original alude ao nome de um colégio particular onde decorre a acção.

Imagem

Rushmore é uma comédia juvenil, dos "tempos de liceu", insere-se numa longa tradição de filmes sobre o processo de "socialização" na adolescência dentro do sistema educativo americano, contextualizado na frincha de ruptura entre classes sociais diversas, e coincidente com a fase da afirmação, definição de carácter e "passagem à idade adulta" na vida dos intervenientes. Difere de todas as outras abordagens, ainda que muito ao de leve, por se tratar de um filme com o cunho autoral de Wes Anderson, aqui à procura de um rumo mais direccionado e seguro para os seus devaneios artísticos, mas ainda com um pé bastante dentro dos modelos convencionais de formulação estéticos e narrativos. É um filme de transição entre o experimentalismo em bruto de Bottle Rocket e o vector distante, 100% preciso e assertivo, de The Royal Tenenbaums, que podemos considerar como o primeiro objecto andersoniano de plena demonstração das suas reais intenções e capacidades. A ideia de cinema "indie" parece aqui já uma miragem remota, ancorando-se a semi-rebeldia da abordagem numa "zona de conforto" controlada e asséptica sustentada por um grande estúdio (a Disney, curiosamente). Olhando agora de longe para o passado, é bem provável que este momento de segurança e apoio estruturais tenham sido determinantes para o crescimento de Anderson enquanto cineasta, e para o vertiginoso salto em frente que representou o "projecto Tenenbaums".

Dito isto, Rushmore é bem capaz de ser o filme de mais fácil deglutição para o vasto público, e apesar de já se começarem a vislumbrar os pilares daquilo que será mais tarde a espinal medula de todo um corpo de trabalho, esses sinais aparecem aqui dispersos e diluídos ao longo de uma "história vulgar", até algo light, que não arrisca em demasia, que não é tão "disfuncional" como o filme anterior de Anderson, e que não causa a azia ou enjoo através das suas "desconformidades". Ainda assim, para quem quiser prestar um pouco mais de atenção à psique autoral mais negra, pode sempre espreitar por baixo do embrulho, o sub-texto está lá todo.

No centro narrativo encontra-se Max Fischer (Jason Schwartzman), o nosso "master schemer" habitual, com uma natural compulsão para tudo controlar e planear (ordenar o caos segundo padrões reconhecíveis) e um imperturbável espírito empreendedor, um jovem estudante nerd, em fase expansiva de afirmação pessoal numa escola privada "para ricos", como fica bem claro logo nos minutos iniciais. Sucede que Fischer não é rico, não pertence à mesma classe social dos seus colegas, tem de mentir para manter o "status", e foi aceite na escola através de uma bolsa particular, concedida pelo reitor, que reconheceu mérito no jovem através de uma peça de teatro que escreveu como forma de candidatura. Fischer é de resto mau aluno em todas as disciplinas, e está em risco de ser expulso se o padrão não se inverter. E nesta fase complicada da sua estadia, entra em cena o "agente provocador", a professora Rosemary Cross (Olivia Williams), que se vai tornar o centro do mundo para Fischer. O amor move montanhas e o jovem vai levar quase à letra esse mote para provar o seu valor junto de Cross. Em conjunto com Herman Blume (Bill Murray), pai abastado de dois colegas Fischer em plena crise conjugal, forma-se então um pseudo-triângulo amoroso que muitas dores de cabeça e crescimento vai trazer ao protagonista.

Rushmore pode não conseguir fugir a uma série de lugares comuns que povoam este género de filmes (o mais recente caso é o de Lady Bird, fita de estreia de Greta Gerwig, que apesar do olhar sincero e sensível, não acrescenta um vírgula a tudo o que já foi filmado para trás), mas fá-lo de uma perspectiva suficientemente "fresca", original e até poética, ainda que tímida (não arrisca - os temas polémicos trata-os à distância), para o podermos apreciar sem reservas. O elenco, mais uma vez com imensa sorte na adequação entre artistas e personagens e na respectiva química que se estabelece em cena, é uma mais valia muito suculenta. Oportunidade também para ver o intelecto criativo de Anderson a dar os primeiros passos artísticos na direcção e dimensão que hoje se conhece, e apreciar outro punhado de sequências narrativas extraordinárias (que se elevam a espaços no meio das restantes, mais "convencionais").

8/10


--- NOTAS ADICIONAIS

- Primeiros 10 minutos "de arromba", linguagem narrativa, estética, poder de síntese, e um grande jump-cut entre sonho e realidade.
- Os compartimentos/divisórias físicas enquanto projecções dos estados emocionais ( + indoor vs outdoor)
- A família disfuncional, a família biológica e as hipóteses virtuais, de fronteiras indefinidas, de criação de famílias paralelas, com sobreposição de papéis (mãe/amante - amigo/padrasto)
- A alegoria da guerra (do Vietname) enquanto súmula (e catarse) para o amor - e o treatro como forma de comunicação e exposição metafórica de sentimentos.
- Outra vez Jacques Ives-Cousteau
- O "teatro dentro do teatro"
- O teatro como centro de controlo criativo total para o Max (paralelo com o mundo real, e com a personalidade do Anderson)
- A depressão que se começa a curar quando um novo "agente" entra em cena (a sequência brilhante do kite e do aeroplano)
- A marcas estéticas de autor - muito e particular na composição e preenchimento (no sentido fotográfico) de alguns "frames" - padrões, cores, texturas, equilíbrio e harmonia entre os elementos - mas o cuidado de não permitir simetria

---
Entrevista com o realizador, na altura da estreia, com alguns inputs engraçados e reveladores de Bill Murray:
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