Szegénylegények / The Round-Up (1966) - Miklós Jancsó

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Szegénylegények / The Round-Up (1966) - Miklós Jancsó

Post by JoséMiguel » Fri Jan 12, 2018 9:53 pm

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https://en.wikipedia.org/wiki/The_Round-Up_(1966_film)
http://www.imdb.com/title/tt0059776/

Sinopse
Following the quelling of Lajos Kossuth's 1848 revolution against Habsburg rule in Hungary, prison camps were set up for people suspected of being Kossuth's supporters. Around 20 years later, some members of highwayman Sándor Rózsa's guerrilla band, believed to be some of Kossuth's last supporters, are known to be interned among the prisoners in a camp. The prison staff try to identify the rebels and find out if Sándor is among them using various means of mental and physical torture and trickery. (Wikipedia)
Vídeo da introdução, capturado por mim

Terei de escrever alguns comentários e fornecer alguma informação histórica europeia sobre a Europa do século XVIII, para explicar porque o filme arranca com a mesma melodia do hino da Alemanha Nazi "Deutschland, Deutschland über alles, über alles in der Welt" (usually translated into English as "Germany, Germany above all else, above all else in the world").

Este é um filme húngaro que faz parte do modelo soviético de Cinema do Bloco de Leste, ainda há 2 anos atrás este filme foi seleccionado em Cannes numa mostra especial de clássicos de cinema ("it was selected to be screened in the Cannes Classics section of the 2015 Cannes Film Festival"). Mas antes da Hungria ser um país comunista pela segunda vez, após a 2ª Guerra Mundial, (a Hungria foi o 2º país soviético do mundo, mas tornou-se capitalista perante um golpe de estado provocado por agentes de países vizinhos, e mais tarde foi membro militar do Eixo, com as suas próprias S.S. e extermínio de judeus), tinha feito parte do famoso Império Austro-Húngaro que provocou a 1ª Guerra Mundial, como sabemos dos livros portugueses de História.

Expliquei isto na minha crítica do filme "Édes Anna" de 1958, aqui no fórum.

Quando esta melodia foi escrita (que os nazis usaram como hino da Alemanha, e que ainda se usa hoje na Alemanha reunificada), nem sequer existia ainda a Alemanha, esta melodia foi composta no antigo Sacro Império Romano-Germânico.
The melody of the "Deutschlandlied" was originally written by Joseph Haydn in 1797 to provide music to the poem "Gott erhalte Franz den Kaiser" ("God save Franz the Emperor") by Lorenz Leopold Haschka. The song was a birthday anthem to Francis II, Holy Roman Emperor of the House of Habsburg, and was intended to rival in merit the British "God Save the King".

After the dissolution of the Holy Roman Empire in 1806, "Gott erhalte Franz den Kaiser" became the official anthem of the emperor of the Austrian Empire. After the death of Francis II new lyrics were composed in 1854, Gott erhalte, Gott beschütze, that mentioned the Emperor, but not by name. With those new lyrics, the song continued to be the anthem of Imperial Austria and later of Austria-Hungary. Austrian monarchists continued to use this anthem after 1918 in the hope of restoring the monarchy. The adoption of the Austrian anthem's melody by Germany in 1922 was not opposed by Austria.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Deutschla ... background


Realizador

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Miklós Jancsó (1921-2014)

O "Dom" Miklós Jancsó é nosso conhecido aqui do fórum, pelo meu tópico do seu filme "Private Vices, Public Pleasures", em que ele foi preso em Itália pelo crime (imagine-se) de pornografia. Nos anos 70 era proibida a pornografia em Itália, e um realizador ia logo para a prisão por muito menos do que isso. Este grande homem húngaro mudou as leis da Itália, numa década em que até em França o cinema era ainda censurado por conter certo tipo de nudez ou erotismo. Eu pertenço à primeira geração de europeus, que nos anos 80, testemunhou a liberdade moral no cinema, pois antes dos anos 80 os realizadores eram presos na Europa Ocidental, mesmo em países não-fascistas como a Itália ou a França (O Joel Seria teve problemas em França, nos anos 70).

Este grande Miklós Jancsó teve a coragem de vir da Hungria trazer liberdade moral para o Cinema da Itália, e ser preso. Como o filme dele tinha uma enorme qualidade, o juiz italiano criou um precedente europeu para o Cinema e soltou o homem, o que poderá ter causado um efeito dominó no resto da Europa (Se a Itália pode, então a França, também tem de poder, etc.). A coragem deste homem é que ele teria ido mesmo cumprir pena de prisão efectiva, caso não tivesse tido a sorte do juiz italiano gostar do filme dele, sendo assim esse juiz também é meu herói.

https://en.wikipedia.org/wiki/Mikl%C3%B3s_Jancs%C3%B3

O outro filme que vi dele, é o "Így jöttem" de 1964, também já aqui falado no fórum, pela cinematografia brutal do "tipo soviética" (fiz um clip com o cameraman sentado num jipe, num take longo, com grande pré-encenação, com aviões, mulheres-soldado russas sinaleiras, etc. mas não me lembro se criei tópico).

Sobre o filme deste tópico, o wikipedia do realizador diz o seguinte:
The Round-Up takes place shortly after a failed Hungarian uprising against Austrian rule in 1848 and the attempts by the authorities to weed out those who took part in the rebellion. The film was shot in widescreen in black and white by regular Jancsó collaborator Tamás Somló. Although it is Jancsó most famous film, The Round-Up does not exhibit many of his trademark elements to the degree to which he would later develop them: thus, the takes are comparatively short and although the camera movements are carefully choreographed they do not exhibit the elaborate fluid style that would become distinctive in later films. The film does, though, use Jancsó's favorite setting, the Hungarian puszta (plain), shot in characteristically oppressive sunlight.
The Round-Up premiered at the 1966 Cannes Film Festival and was a huge international success. Hungarian film critic Zoltán Fábri called it "perhaps the best Hungarian film ever made."[2] Film critic Derek Malcolm included The Round-Up in his list of the 100 greatest films ever made. In Hungary, the film was seen by over a million people (in a country with a population of 10 million).

JoséMiguel
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Re: Szegénylegények / The Round-Up (1966) - Miklós Jancsó

Post by JoséMiguel » Fri Jan 12, 2018 11:49 pm

Alguns comentários

Ainda não tenho tempo para escrever a minha (muito positiva) opinião deste filme, mas criei um segundo excerto muito interessante, que julgo ser do interesse do pessoal do fórum, pela originalidade e qualidade do cinema de autor de leste. Já irei mostrar o vídeo que contém uma mulher inocente toda nua a ser chicoteada até à morte pelo exército húngaro, como forma de obter confissões dos familiares presos, que é interessante por vários motivos, desde a comparação com a censura moral do Production Code norte-americano ou com a censura política do "Regime" da República Francesa nos anos 60 (recordam-se do filme do Stanley Kubrick, censurado pelo governo de França, nesta altura?).

Mas antes, alguns pensamentos meus acerca do Cinema de Leste...

Eu sinceramente fiquei a "coçar a cabeça" com este filme, na semana passada quando o vi pela primeira vez, pois um bom "Filme de Leste" faz-nos sentir crianças, como na idade dos 7-11 anos, em que não entendíamos os filmes que víamos, por não termos ainda estudado a História entre o 7º e 9º ano de escolaridade. Isto para mim em adulto é que é a magia do cinema.

Temos que pensar que o modelo oposto de Hollywood é criado para o máximo denominador comum, cujo objectivo é que um filme comercial de Hollywood seja apreciado por um atrasado mental, eu aqui utilizo o termo atrasado mental literalmente, mas sem faltar ao respeito a eles, que merecem o melhor. Outra característica do conceito de Hollywood, é que além dos atrasados mentais gostarem do filme, tem também de existir muita gente (na sua maioria adolescentes) que goste do filme.

No fundo o que eu estou a descrever é o cinema comercial norte-americano, que pretende "agradar a gregos e troianos" (vejam que expressão bonita e diplomática eu usei!). O Cinema da esfera soviética era muito diferente do cinema norte-americano, europeu ou asiático, exactamente por agradar a gregos e também a troianos, mas nunca no mesmo filme!!! Como é que posso explicar melhor isto...?

Há muito filme soviético para atrasado mental (que também têm direito a bom cinema para eles), mas ao mesmo tempo existe também muita variedade de filme especializado para agradar a minorias diferentes, porque as pessoas não são todas iguais e o filme que agrada a um, já não agrada a outro. Ou seja, os directores dos estúdios do bloco de Leste procuravam agradar ao máximo número de pessoas, mas não no mesmo filme e sim em filmes diferentes, cada um vocacionado para certo grupo de espectadores. Portanto o conceito matemático de mínimo múltiplo comum, que é oposto ao máximo denominador comum de Hollywood.

Exemplo:

Em Portugal temos o realizador Manoel de Oliveira, "que só faz filmes para ele" (li essa descrição engraçada aqui no fórum). Eu pessoalmente não gosto dos filmes dele, mas respeito esta onda de se fazer filmes para pequenas minorias (existem muitos estrangeiros que gostam dos filmes dele). Por outro lado o cinema português é muito pobrezinho e não possui um leque de oferta para as outras minorias, mas já o cinema espanhol, francês, britânico, alemão e italiano, combinados possuem maior diversidade de oferta e especialização para as imensas minorias.

No entanto, todo o Cinema da Europa Ocidental combinado, não possui a riqueza da diversidade (para agradar ao maior número de minorias) do Cinema do Bloco de Leste, ou por outras palavras, existiam francamente muito mais Stanley Kubrick's (cineastas de autor) no bloco de leste, cada um a tentar fazer o melhor filme possível, conforme os seus gostos pessoais, do que na Europa, EUA e ao Japão, tudo somado.

Por exemplo, no cinema norte-americano, quantos realizadores de autor conhecem? 6 ou 12? Spielberg, Scorcese, Kubrick, etc.? E na Europa Ocidental, quantos conhecem? Se calhar são mais...

Mas o Bloco de Leste era composto de imensos países europeus satélites muito grandes, como a Hungria, Polónia, Checoslováquia, Roménia, Jugoslávia, etc. que nem sequer faziam parte da União Soviética, e todos eles com uma espectacular indústria de Cinema nacionalizada, financiada por cada governo, sem interesse em obter lucros (conceito capitalista subversivo e proibido) em que todos os filmes eram filmes de autor (até uma telenovela fútil ou uma comédia parva, eram cinema de autor).

Os filmes de leste de que tenho falado no fórum são os que eu gosto, mas existe ali uma mina de ouro de outros filmes, muito originais e com muita qualidade, que diferentes pessoas irão gostar.

Finalmente o meu clip:



Eu não sabia bem o que se estava a passar, quando vi o filme, pela simples razão de eu ser português. Uma característica engraçada de se ver um filme do bloco soviético, no século XXI, é que agora temos acesso ao wikipedia para irmos tirar dúvidas sobre a História ou Literatura (eu ainda nem sei bem qual o caso aqui, porque ainda não fui ler tudo), mas em 1966 qualquer crítico profissional de Cinema não-húngaro ficaria logo entalado e impossibilitado de avaliar o filme, pelo seu natural desconhecimento da História Húngara e inexistência da Internet e Wikipedia.

Este filme húngaro é do mesmo tema do filme português José do Telhado (já criei tópico, é aquele filme do bandido português que roubava aos ricos para dar aos pobres), mas na história do cinema português nunca existiu nenhum realizador como este Miklós Jancsó. Ainda não fui investigar a veracidade histórica de certos elementos do filme (que não constam no idioma inglês no Wikipédia, e terei de ir espreitar a tradução do húngaro, antes de analisar o filme).

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Re: Szegénylegények / The Round-Up (1966) - Miklós Jancsó

Post by JoséMiguel » Sat Jan 13, 2018 4:52 am

Aditamento à secção do realizador

Para não sobrecarregar a ficha técnica, aqui ficam as referências do fórum DVD Mania que mencionei de memória, dos outros filmes do realizador, juntamente com clips; tive de voltar a carregar um ou outro, antes de poder escrever isto (o trabalho que eu tenho, antes de poder falar à vontade de um filme).

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viewtopic.php?f=11&t=50948&p=626904

Este é o filme de 1976, em que o realizador foi preso em Itália. Este ano de 1976 tira-me do sério enquanto português, por ser dois anos após o 25 de Abril. Se os cinéfilos portugueses e espanhóis julgam que antes de 1974 (Portugal) e 1975 (Espanha) toda a censura de cinema era provocada pelo fascismo e no resto da Europa tudo era permitido, desenganem-se, porque em 1976 o governo italiano meteu este realizador na cadeia, e só se salvou graças a um juiz italiano que viu mérito, qualidade e pioneirismo no filme dele. O que é triste aqui é que o fascismo acabou em Itália no ano de 1945, quando penduraram o Mussolini de pernas para o ar e o Hitler ficou muito triste ao ouvir a notícia no seu bunker. E 30 anos mais tarde quando já apenas restava fascismo em Portugal e Espanha, os italianos mandam prender um realizador de cinema por motivos religiosos de pecado!??? Mas o que é isto!!!???? Que Europa era esta na década de 1970, em que eu era bebé!???

Olhem, uma actriz húngara deste filme foi deputada no governo italiano, já na década de 1980, trata-se da famosa Cicciolina (que nasceu em Budapeste, durante a Guerra Fria), mas antes da carreira porno, e sem nenhuma pornalhada de cinema de má qualidade neste filme. Já viram a brutal diferença moral/religiosa entre a Itália de 1976 a Itália de 1987!???
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Foto recente da Cicciolina, tirada aqui perto na Galiza, em 2009

In 1979, Staller was presented as a candidate to the Italian parliament by the Lista del Sole, Italy's first Green party. In 1985, she switched to the Partito Radicale, campaigning on a libertarian platform against nuclear energy and NATO membership, as well as for human rights. She was elected to the Italian parliament in 1987, with approximately 20,000 votes. While in office, and before the outset of the Gulf War, she offered to have sex with Iraqi leader Saddam Hussein in return for peace in the region.[8] She was not re-elected at the end of her term in 1991.[9]
O personagem que surge no vídeo abaixo era o herdeiro directo e legítimo do Império Austro-Húngaro, quando ele morreu o herdeiro passou a ser o famoso Arquiduque Francisco Fernando, cujo assassinato provocou a 1ª Guerra Mundial. Acho que este herdeiro legítimo era boémio e estava-se mesmo a cagar para política e regras sociais, ele gostava de gajas e de beber copos e não queria saber de impérios ou política. :biggrin: yes-) :badgrin: Se eu fosse herdeiro do Império Austro-Húngaro também seria assim, e depois se calhar também me matavam por ser inconveniente aos "powers that be". :-x :-(



O outro filme é este:

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viewtopic.php?f=11&t=50814&p=615428

Tive agora a re-carregar no Vimeo o meu belo clip (com a excelente cinematografia/encenação do tipo soviética) que fiz em 2013, e que por sorte tenho um backup:

Atenção, que esta lindíssima encenação de cinema húngara, mostra um país que em tempos foi uma república soviética, mas que na 2ª Guerra Mundial era uma nojice nazi, com programa próprio de SS genocidas, por um governo mais fascista que o Salazar, Franco ou Mussolini, aliado do Hitler. A acção desenrola-se precisamente quando o Exército Vermelho captura a Hungria, que não se trata de uma "libertação" do Estaline de um qualquer país europeu de Leste, mas sim de uma ocupação militar a um país fascista inimigo, que considerava os russos sub-humanos e os tentava exterminar. O protagonista do filme é membro das SS húngaras, e só não foi sumariamente executado pelo exército vermelho, porque era um rapazinho muito jovem.



viewtopic.php?f=11&t=50814&p=615428

JoséMiguel
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Re: Szegénylegények / The Round-Up (1966) - Miklós Jancsó

Post by JoséMiguel » Mon Jan 15, 2018 10:59 pm

Sobre o filme

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Este filme tem um elevado factor de entretimento, enquanto thriller/suspense, por ter sido feito por um aclamado realizador de cinema de autor, do bloco soviético, onde está mais do que garantida a qualidade, originalidade e acima de tudo a imprevisibilidade do enredo e construção da narrativa.

É para mim extremamente difícil procurar exemplos de outros filmes, que eu possa dizer que são parecidos. Ocorreu-me o exemplo do realizador M. Night Shyamalan, mas também aí as semelhanças não serão muitas, para além do twist/surpresa final, de que obviamente não poderei falar, para não fazer spoilers. Comparando os dois estilos, este The Round-Up não é tão eficaz no twist final, mas por outro lado possui originalidade e pertinência de temas, que estão ausentes no trabalho do M. Night Shyamalan (realizador muito comercial, cujos filmes são vítimas da fórmula de Hollywood).

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Outro exemplo que me ocorreu para comparação, foi o filme "O Nome da Rosa" de Jean-Jacques Annaud, e aqui as similaridades já são maiores, bem como ambos os filmes partilharem os mesmos géneros exactos que são o drama e suspense. Ambos os filmes possuem inteligência e estratégia, embora no caso do filme húngaro, não existam heróis ou personagens moralmente bons.

As características gerais do cinema de leste são a ausência de fórmulas e preocupação com inovação, originalidade e mistura de géneros, aqui bem patentes.

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A sinopse do filme até é simples e consiste num campo de prisioneiros comuns (ladrões, assassinos, etc.), após o esmagamento da Revolução Húngara de 1848. Esta revolução, a par com outras revoluções europeias da mesma altura, pretendia derrubar a Monarquia Absoluta e instaurar uma República Democrática, a diferença no caso húngaro é que simultaneamente pretendiam também a independência da Hungria do Império Austro-Húngaro.

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Artist Mihály Zichy's painting of Sándor Petőfi reciting the National Poem to a crowd on March 15, 1848 (wikipedia)

Quando eu vi o filme, não tinha acesso à internet e não fazia a mínima ideia da conjectura histórica europeia de Portugal até à Rússia, que estava a afectar a Hungria de então, nem tão pouco da história interna da Hungria. Eu já tinha descoberto que a Hungria antes de ser um país fascista, membro do Eixo, durante a 2ª Guerra Mundial, tinha antes sido o 2º país do mundo a declarar-se uma República Socialista Soviética. Mas já o meu livro de História do 9º ano dizia que a Primeira Guerra Mundial tinha sido causada pelo assassinato do Arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, herdeiro do Império Austro-Húngaro.

A Hungria possui obviamente uma Historia muito rica e original, hoje é parceiro de Portugal na União europeia, mas antes foi um aliado militar do Hitler, foi satélite da União Soviética (Golden Age do Cinema Húngaro, em filmes como este) e até foi inimigo militar de Portugal, durante a 1ª Guerra Mundial. A carga histórica que está patente neste filme, é pesada e consiste no rescaldo da revolução falhada de 1848.

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Sándor Rózsa (born July 10, 1813, Röszke – died November 22, 1878, Gherla)[1] was a legendary Hungarian outlaw (in Hungarian: betyár) from the Great Hungarian Plain. He is the best-known Hungarian highwayman; his life inspired numerous writers, notably Zsigmond Móricz and Gyula Krúdy. He enjoyed much the same esteem as English highwayman Dick Turpin, with elements of Robin Hood thrown in for good measure. Rózsa, like Jóska Sobri, is one of the most famous Hungarian betyárs (bandits). (Wikipedia)

No enredo deste filme, o conde Gedeon Ráday, um homem do regime ao serviço da Coroa Austríaca, está destacado na qualidade de Comissário Real, para desmantelar a quadrilha do Sándor Rózsa. Ele é o director da prisão e eu já estive a ler a biografia dele, traduzida do Húngaro.

O primeiro problema moral e ético do enredo deste filme, é que de um lado temos um fascista (ainda não tinha surgido o termo, e no século XIX utilizava-se a designação de reaccionário) e homem do regime, muito inteligente, a usar altas estratégias policiais ao nível da Scotland Yard, mas por outro lado recorre a métodos "black ops" saídos da NSA e CIA norte-americana, que a sociedade condena.

O segundo problema moral e ético deste filme está no Sándor Rózsa e sua quadrilha, que foi romantizado pelo povo húngaro como algum bandido Robin dos Bosques, e eu aqui levanto uma grande objecção pessoal, enquanto português.

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Eu já tinha criado um tópico para o filme português do nosso bandido Robin dos Bosques, que é uma figura histórica que merece essa comparação, por apenas roubar os ricos.

viewtopic.php?f=11&t=51316&p=621941

O José do Telhado vive na mesma época do Sándor Rózsa, e ambos os chefes de quadrilhas de bandidos lutam no exército em guerras civis, ao mesmo tempo, um em Portugal e outro na Hungria. A diferença entre os dois é que o bandido húngaro era um assassino psicopata, cuja quadrilha matava e roubava toda a gente, até os pobres. Na realidade o Sándor Rózsa é mais parecido com aquele bandido Diogo Alves de Lisboa, que atirava criancinhas do alto do Aqueduto das Águas-Livres (pelo menos a julgar pelo filme):

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viewtopic.php?f=11&t=51909&p=627114

Se eu me sentasse à mesa numa taberna, com um cinéfilo húngaro, a discutirmos o Sándor Rózsa, o tipo húngaro ia-se zangar comigo! :p

Já discuti o Vlad Tepes (Drácula) com uma senhora romena, dona de uma taberna em Lisboa, e gostei muito da conversa. Eu entendo perfeitamente porque o psicopata do Vovóide Dracul seja um herói nacional romeno (por causa do que os otomanos muçulmanos andavam a fazer aos países vizinhos da Roménia). Mas este Sándor Rózsa parece-me ser apenas um bandido malandro. :doubt:

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Na imagem acima podemos ver o personagem Gedeon Ráday, que historicamente foi uma espécie de director da PIDE / Direcção Geral de Segurança. Esta analogia talvez seja mais clara, quando eu criar a secção do enquadramento histórico geo-político europeu, e explicar a outra camada deste filme, que consiste em intervenção política contra os regimes da União Soviética e da ditadura da Hungria Comunista.

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David Jancsó, o filho do realizador em 2015, a dar uma entrevista em Cannes, acerca deste mesmo filme.

http://www.festival-cannes.com/en/69-ed ... los-jancso

Na entrevista acima, o filho do realizador diz o seguinte:
The most difficult challenge was to find a new style in order to portray the essential cruelty of human behaviour. My father clothed his message in a historical film so as to approach taboo subjects such as the events of 1956, while at the same time avoiding the censors. This is how he came to make The Round-Up.
Esta frase contém dois eventos históricos, não conhecidos do povo português, que são a Revolução Húngara de 1956 contra a União Soviética e a Revolução Húngara de 1848, contra a Áustria. Um filme de intervenção, para surtir efeito e ter impacto, tem de ser entendido pelas massas. Mas eu enquanto português da geração de 70, não estava a conseguir entender este aspecto e por isso andei a ler muitas páginas do wikipedia, acerca de ambos os eventos históricos, de que falarei numa secção posterior.

No entanto adianto alguns detalhes históricos que me chamaram a atenção, e que seriam dignos por si mesmos, do nosso tópico da política aqui no fórum.

Quer em 1848, quer em 1956, os russos invadiram militarmente a Hungria e impediram as duas tentativas de haver democracia nesse país. Em 1848 o Czar da Rússia era um fanático fascista de Direita com o cognome "Gendarme (polícia) da Europa", em que tal como a cruzada dos americanos contra o comunismo após a 2ª Guerra, o líder da Rússia Imperial intervia militarmente contra qualquer povo europeu, que tentasse derrubar a Monarquia. O maior inimigo ideológico do czar da Rússia era o Rei de França, no século XIX a França tinha voltado a ser uma Monarquia, mas o Rei francês era um rei do povo, da ideologia do Liberalismo. O Czar da Rússia não tolerava que nenhum rei europeu permitisse direitos aos camponeses, que na Rússia eram escravos feudais (os camponeses russos só ganharam os direitos e liberdades que os camponeses portugueses já tinham na Idade Média, "à bomba" em 1917).
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Nicholas hated Louis-Philippe, the self-styled Le roi citoyen ("the Citizen King") as a renegade nobleman and an "usurper", and his foreign policy starting in 1830 was primarily anti-French, based upon reviving the coalition of Russia, Prussia, Austria and Britain to isolate France.[43] Nicholas detested Louis-Philippe to the point that he refused to use his name, calling him merely "the usurper".[44] Britain was unwilling to join the anti-French coalition, but Nicholas was successful in cementing the existing ties to Austria and Prussia, regularly holding joint military reviews with the Austrians and Prussians.[45] For much of the 1830s, a sort of "cold war" existed between the liberal "western bloc" of France and Britain vs. the reactionary "eastern bloc" of Austria, Prussia and Russia.[46]

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Nicholas_ ... ign_policy
A revolução húngara de 1956 é ideologicamente similar à Revolução dos Cravos de Portugal, mas foi esmagada pelos soviéticos.

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É sobre isto, de que o filho do realizador fala na entrevista recente em Cannes, a propósito da censura política no cinema, acerca deste evento:
On 4 November, a large Soviet force invaded Budapest and other regions of the country. The Hungarian resistance continued until 10 November. Over 2,500 Hungarians and 700 Soviet troops were killed in the conflict, and 200,000 Hungarians fled as refugees. Mass arrests and denunciations continued for months thereafter. By January 1957, the new Soviet-installed government had suppressed all public opposition. These Soviet actions, while strengthening control over the Eastern Bloc, alienated many Western Marxists, leading to splits and/or considerable losses of membership for communist parties in capitalist states.
Public discussion about this revolution was suppressed in Hungary for more than 30 years. Since the thaw of the 1980s, it has been a subject of intense study and debate. At the inauguration of the Third Hungarian Republic in 1989, 23 October was declared a national holiday.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Hungarian ... nal_events
Observação: Já viram o meu entretém a andar a pesquisar estes eventos da História da Hungria? Eu fiz isso porque os filmes históricos de Leste são tão bem feitos e pedagógicos, que me levam a ficar curioso e muito intrigado e por isso querer saber mais. :-)

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