Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

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rui sousa
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by rui sousa » Fri Jan 26, 2018 12:09 pm

Por mim pode ser :) De facto está muito barato na Amazon, é aproveitar!

Gaspar Garção
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by Gaspar Garção » Sun Jul 22, 2018 4:28 pm

Acabei de o comprar na fnac, depois virei aqui ler os comentários... :-)
Na baliza Jackson, defesa com Scorsese, Coppola, Spielberg e Eastwood. No meio campo, Ridley Scott, Wes Anderson, Pollack e Carpenter. Avançados, Woody, e solto nas alas Tarkovsky. Suplentes: Bunuel, Fellini, Kurosawa, Visconti, Antonioni, Lynch e Burton.

nimzabo
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by nimzabo » Mon Jul 23, 2018 10:24 am

ler e escrever

technicolor
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by technicolor » Mon Jul 23, 2018 1:35 pm

nimzabo wrote:
Mon Jul 23, 2018 10:24 am
ler e escrever
Exactamente! Ler e escrever como?-) .

Aproveito para informar a quem gosta do filme e desconheça, que o mesmo foi restaurado (2K) e tem uma edição blu ray (Criterion) que já tive o prazer de ver e "constatei", que a mesma permite avaliar melhor a qualidade estética da obra (as texturas são bem perceptíveis, a gama tonal desta versão permite visualizar mais nuances e a luminosidade (de inverno) é mais contrastada mas sem exagero.

https://www.criterion.com/films/245-vagabond


A terminar só lamento eh-) que o autor da iniciativa não tenha ele também escrito algo sobre o filme (eu não encontrei) e não me quer parecer que ficasse mal ...ou influenciasse ninguém -bullshit-

Edit; Agora que este tópico está "up" novamente graças ao comentário do Gaspar Garção aproveito para "mandar mais umas achas para a fogueira"

Para aqueles que também gostam de um cinema mais "sério" (não só de cinema de entretenimento do qual também gosto pato-) ) fica o link para um texto (em inglês) de Chris Darke intitulado Vagabond: Freedom and Dirt que me parece defender a tese (?) de que Sans Toit... é um filme significativo do cinema moderno (quiçá um pouco na onda do Neorealismo italiano do que propriamente da nouvelle vague como seria mais lógico... e isto já são ilações minhas :mrgreen: ) e não terá sido por acaso ou condescendência que ganhou o Leão de Ouro em Veneza...

https://www.criterion.com/current/posts ... m-and-dirt
Last edited by technicolor on Mon Jul 23, 2018 9:11 pm, edited 3 times in total.

nimzabo
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by nimzabo » Mon Jul 23, 2018 4:56 pm

Toda a razão. Disse que ia rever o filme e escrever qualquer coisa mas depois não o fiz.
Não sei... talvez...

nimzabo
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by nimzabo » Tue Jul 31, 2018 4:09 pm

Finalmente lá revi o filme e deixo aqui algumas coisas que me vieram à mente ao ler os vossos comentários.

joao.sampaio.165
Aqui é o que eu acho mais estranho no filme, o facto de haver várias pessoas a dizer que gostavam de ser livres como ela, como que a invejar o modo de vida que a jovem leva. Mas eu pergunto ela é livre em quê? Todos os dias a depender da caridade dos outros para poder sobreviver, sujeita a violações e a ter que vender-se por trocos, isso é ser livre?
O depender da caridade é também o depender do que vem ao nosso encontro em cada dia, chamemos-lhe providência divina ou acaso.
É uma vida feita à descoberta do que surge em cada curva do caminho.
É liberdade em relação a uma vida balizada por horários, pagamentos ou obrigações.
É uma vida crua em que o espírito está mais desperto do que numa vida feita de conforto.
É liberdade também no sentido de se estar nas tintas para o que os outros pensam e por isso não finge sentimentos ou sorrisos.
Há pequeninos prazeres numa vida assim que não se encontram noutras formas mais sedentárias e asseguradas de viver.


technicolor
Mas será que foi "vencida" por ter entrado num "caminho sem regresso" ou terá completado a sua existência de uma forma que tenha sido uma escolha deliberada? e terá sido verdadeiramente feliz na sua curta existência com essa suposta escolha?
Não me aprece que a morte tenha sido deliberada.
Quanto à questão de ser feliz, que curiosamente colocas duas vezes, também me parece que não.
Embora nalgumas ocasiões pareça ter sido feliz, no geral acho que não.
Parece-me que ela exigia demasiado das pessoas, não perdoando qualquer tipo de 'fraqueza' dos outros.
Penso que encontrou felicidade pelo menos com o tunisino e com a velhota.


paupau
Nao ter horarios, compromissos de qualquer ordem, preocupacoes monetarias e por ai fora, so esta ao alcance de um milionario ou de um vagabundo.
O que dizes parece-me certo. Só quero acrescentar que o ser milionário coloca algumas tentações e solicitações do que fazer com o dinheiro e desse ponto de vista pode ser visto como uma perda de liberdade. O dinheiro requer que se lhe dê atenção, pelo menos que se pense nele.


Samwise
Penso também que a Varda tencionou provocar-nos de outra maneira: e se fossemos nós naquela situação?
Há uns anos andei uns 15 dias pelo norte do país a dormir na rua onde calhava, no fim de Outubro. Penso que a noite até se passa bem, partindo do principio que se encontra um bom sitio para pernoitar, o que nem sempre acontece. O dia é mais problemático pela falta de coisas para fazer. Há alturas em que não há anda a fazer a não ser olhar para o ar. Não é por caso que muitas pessoas sem abrigo caem no álcool.


rui sousa
Cada vez mais me sinto ligado a filmes que tenham ideias de cinema, e só depois é que sigo para as "ideias que suscitem um debate pós-visionamento". Além de que "realismo" num filme não é algo que me motive a ver determinados filmes porque... Lá está.... São filmes e acreditar que podem ser "realistas", porque nunca serão um pedaço da vida, é demasiado utópico para mim.
Eu nisso acho que sou o inverso, tenho muito pouca sensibilidade para o que é do cinema. Nós os dois sentados lado a lado num cinema devemos ver duas coisas completamente diferentes. E claro, isso depois também pode ser transposto para a vida: a forma diferenciada como as pessoas olham para o que sucede diante de si.
É como se cada um apenas visse um bocadinho da realidade e, muito importante, um aspecto de cada vez. Seria interessante ao ser humano ter a capacidade de ter várias perspectivas em simultâneo.
O cinema é um veículo para olharmos para diferentes aspectos da vida, e uma forma menos realista até pode ser mais eloquente que uma mais, mas não me parece à partida que um filme por ter aspirações a algum realismo esteja em desvantagem em relação a outro. Também não sei se pretende ser um pedaço de vida.
Poderá também ter a ver com a sensibilidade de cada um em relação ao tema especifico que está a ser retratado.

technicolor
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by technicolor » Tue Jul 31, 2018 8:05 pm

nimzabo wrote:
Tue Jul 31, 2018 4:09 pm
Finalmente lá revi o filme e deixo aqui algumas coisas que me vieram à mente ao ler os vossos comentários.

joao.sampaio.165
Aqui é o que eu acho mais estranho no filme, o facto de haver várias pessoas a dizer que gostavam de ser livres como ela, como que a invejar o modo de vida que a jovem leva. Mas eu pergunto ela é livre em quê? Todos os dias a depender da caridade dos outros para poder sobreviver, sujeita a violações e a ter que vender-se por trocos, isso é ser livre?
O depender da caridade é também o depender do que vem ao nosso encontro em cada dia, chamemos-lhe providência divina ou acaso.
É uma vida feita à descoberta do que surge em cada curva do caminho.
É liberdade em relação a uma vida balizada por horários, pagamentos ou obrigações.
É uma vida crua em que o espírito está mais desperto do que numa vida feita de conforto.
É liberdade também no sentido de se estar nas tintas para o que os outros pensam e por isso não finge sentimentos ou sorrisos.
Há pequeninos prazeres numa vida assim que não se encontram noutras formas mais sedentárias e asseguradas de viver.


technicolor
Mas será que foi "vencida" por ter entrado num "caminho sem regresso" ou terá completado a sua existência de uma forma que tenha sido uma escolha deliberada? e terá sido verdadeiramente feliz na sua curta existência com essa suposta escolha?
Não me aprece que a morte tenha sido deliberada.
Quanto à questão de ser feliz, que curiosamente colocas duas vezes, também me parece que não.
Embora nalgumas ocasiões pareça ter sido feliz, no geral acho que não.
Parece-me que ela exigia demasiado das pessoas, não perdoando qualquer tipo de 'fraqueza' dos outros.
Penso que encontrou felicidade pelo menos com o tunisino e com a velhota.


paupau
Nao ter horarios, compromissos de qualquer ordem, preocupacoes monetarias e por ai fora, so esta ao alcance de um milionario ou de um vagabundo.
O que dizes parece-me certo. Só quero acrescentar que o ser milionário coloca algumas tentações e solicitações do que fazer com o dinheiro e desse ponto de vista pode ser visto como uma perda de liberdade. O dinheiro requer que se lhe dê atenção, pelo menos que se pense nele.


Samwise
Penso também que a Varda tencionou provocar-nos de outra maneira: e se fossemos nós naquela situação?
Há uns anos andei uns 15 dias pelo norte do país a dormir na rua onde calhava, no fim de Outubro. Penso que a noite até se passa bem, partindo do principio que se encontra um bom sitio para pernoitar, o que nem sempre acontece. O dia é mais problemático pela falta de coisas para fazer. Há alturas em que não há anda a fazer a não ser olhar para o ar. Não é por caso que muitas pessoas sem abrigo caem no álcool.


rui sousa
Cada vez mais me sinto ligado a filmes que tenham ideias de cinema, e só depois é que sigo para as "ideias que suscitem um debate pós-visionamento". Além de que "realismo" num filme não é algo que me motive a ver determinados filmes porque... Lá está.... São filmes e acreditar que podem ser "realistas", porque nunca serão um pedaço da vida, é demasiado utópico para mim.
Eu nisso acho que sou o inverso, tenho muito pouca sensibilidade para o que é do cinema. Nós os dois sentados lado a lado num cinema devemos ver duas coisas completamente diferentes. E claro, isso depois também pode ser transposto para a vida: a forma diferenciada como as pessoas olham para o que sucede diante de si.
É como se cada um apenas visse um bocadinho da realidade e, muito importante, um aspecto de cada vez. Seria interessante ao ser humano ter a capacidade de ter várias perspectivas em simultâneo.
O cinema é um veículo para olharmos para diferentes aspectos da vida, e uma forma menos realista até pode ser mais eloquente que uma mais, mas não me parece à partida que um filme por ter aspirações a algum realismo esteja em desvantagem em relação a outro. Também não sei se pretende ser um pedaço de vida.
Poderá também ter a ver com a sensibilidade de cada um em relação ao tema especifico que está a ser retratado.


Respondo por mim, com mais algumas divagações (um pouco "ao lado" porque acerca do filme já escrevi bastante ) sobre... as "dúvidas existenciais profundas" da minha já longínqua juventude :mrgreen: que terão de algum modo fomentado uma certa atracção/sedução por este filme da Agnès Varda

Bom, a busca da felicidade, sem possuir vastos/significativos recursos financeiros sempre me interessou de sobremaneira, talvez porque sou um grande apreciador da obra de Jack Kerouac não só a sua obra principal (On the Road) mas também dos livros contos sobre as suas deambulações... eh-) :lol:

Nos anos 70/80 houve duas (várias?) "tendências" em termos de viagens de turismo/aventura low cost entre alguma juventude lisboeta (que eu conheça) ;
As estadias nos Kibutz da Palestina/Israel e o ir fazer as "vendanges" ao sul de França para ganhar uns "trocos" e depois dar um salto a Paris (trabalhos duros de sol a sol relativamente mal remunerados, sendo que no caso dos dos israelitas nem sequer se recebia nada além de dormida e comida) que não me seduziram, mas das quais tive um conhecimento mais detalhado pelos relatos de alguns amigos meus que viveram essas experiências e cuja época e localização geográfica me parece bastante próxima da dos acontecimentos retratados no filme.

O interessante destas vivências é o motivo que levava jovens da "classe média" de Lx, a submeterem-se a uma voluntária e quase total privação de conforto, ainda que temporária... era (seria) segundo percebi um desejo de aventura/experiência em "ambiente controlado" ou seja sem correr o risco de dormir na rua e de passar fome... e que de "libertadora" pouco ou nada teria(?), malta cujos os quartos (em casa dos papás ) estavam frequentemente próximos do imundo (mea culpa) e que resistiam corajosamente aos "apelos" das progenitoras para os arrumar e limpar por pura preguiça teimoso-) mas que depois se submetiam a essas tais vivências no estrangeiro descritas como muito "duras" pelos próprios... :?:

Por fim até que ponto este filme é "único", ou seja, parece-me existirem (alguns) pontos de contacto com o "Into the Wild" (2007) ou o Easy Rider (1969)?] ou... talvez mesmo Diarios de motocicleta (2004) ...foram os que assim de repente me ocorreram :oops:

P.S.: Eu optei por algo menos "radical"; o Interrail (em agosto) isso depois de trabalhar quase todos os fins de semana do ano (e algumas noites) no videoclube do meu tio, para o financiar (21 mil escudos mais uns trocos para as pousadas da juventude e comida)... e foram 3 viagens/3 anos muitos intensos da Escócia à Grécia, da Noruega a Marrocos saint-) nada a ver com uma opção tão definitiva e radical como a da personagem Mona mau-)


nimzabo
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Re: Filme do Mês - Dezembro/2017 - Sans Toi ni Loi

Post by nimzabo » Sat Aug 04, 2018 4:05 pm

A curiosa história da doença que estava a matar plátanos, provocada por algo inusitado
terá algum simbolismo especial? e algumas mais que ainda não deu bem para perceber...
Salvo erro na bíblia, a certa altura as pessoas são comparadas a árvores...
Não sei se é isso mas uma doença que mata árvores pode significar que o estilo de vida sedentário leva as pessoas a não viver a vida na sua plenitude, no sentido em que ao fazerem compromissos e na sua busca por segurança perdem sal e perdem a capacidade de ter uma vida tão 'viva' como é a de alguém que vive 'na estrada', isto é sem amarras.

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