Censura no Cinema e TV: Antes e agora...

Discussão de filmes; a arte pela arte.

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drakes
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by drakes » Fri May 06, 2016 10:41 pm

Um novo guia sobre o conteúdo das séries de TV da China proíbe personagens homossexuais e cenas de relações extraconjugais, encontros amorosos de só uma noite ou amor entre adolescentes.

Os regulamentos, publicados em 31 de dezembro, mas divulgadas nos meios de comunicação chineses esta semana, foram elaborados pela Administração de Imprensa, Rádio, Cinema e Televisão, o órgão responsável pela censura da mídia, em um momento de crescente limitação à liberdade de expressão na China.

Muitos outros tipos de conteúdo, como argumentos que falem de superstições, reencarnações e bruxaria, ou que revelem as estratégias da polícia para resolver casos, também são vetadas pela regulamentação.

Estes e outros aspectos, como imagens de adolescentes fumando, bebendo ou brigando, “exageram o lado escuro da sociedade” e devem ser evitados a partir de agora, segundo o documento, que já recebeu muitas críticas de grupos homossexuais no país.

O guia dos censores se tornou público pouco dias depois que Addiction, uma popular série chinesa transmitida pela Internet sobre a vida de quatro jovens gays, tenha sido retirada das redes após ter conseguido milhões de espectadores.

A China está avançando na aceitação da homossexualidade, que até 2001 era considerada oficialmente uma “doença mental”, mas as autoridades ainda estão tentando que este grupo tenha escassa ou nula presença pública.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03 ... 72297.html

Não sabia se punha na parte de tv, mas a notícia acima também afeta a produção de cinema, só analisarem os últimos filmes (via sinopse) top bilheteria do referido país as características dos personagens.

JoséMiguel
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by JoséMiguel » Fri May 06, 2016 11:03 pm

Drakes, por mim fazes bem em colocar aqui. Até fui eu que criei este tópico e escolhi o título com a palavra "cinema", mas ainda na mensagem anterior expliquei porque não queria abrir um tópico gémeo na secção de TV. Já sei que o moderador da secção de TV poderá ficar um pouco triste (desculpa JRibeiro! oh-) ), mas caberá ao Rui Santos intervir, caso a minha atitude tenha sido pouco correcta. Mas para já não irei alterar o nome do tópico ("Cinema/TV" em vez de apenas "Cinema").

Drakes, eu já tinha lido essa notícia da censura chinesa contra a bruxaria e os gays em jornais portugueses, há cerca de 1 mês, e estive mesmo quase para comentar neste mesmo tópico, acabei por não o fazer e fiquei desiludido pela restante malta não o ter feito, ainda bem que me poupaste o trabalho, já subiste mais 1 ponto na minha consideração. :-)

Mas na verdade quando vi que tinhas escrito uma resposta a este tópico, pensei que irias falar sobre o "Criacionismo" no Brasil, que julgo que andaram a tentar infiltrá-lo no programa escolar de Biologia, nas escolas brasileiras, mas não sei como está a situação neste momento... evil-)

Se quiseres ver o tópico inicial onde comecei a falar disso, e onde coloquei um link para a resolução do Conselho Europeu, procura o tópico do filme do realizador Stanley Kramer onde prenderam o professor de Biologia, não me recordo do título, mas pesquisa por "Stanley Kramer" no título do tópico. oops:) :-?

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by drakes » Sat May 07, 2016 12:39 am

Poderá ficar um pouco triste (desculpa JRibeiro! oh-) ), mas caberá ao Rui Santos intervir, caso a minha atitude tenha sido pouco correcta. Mas para já não irei alterar o nome do tópico ("Cinema/TV" em vez de apenas "Cinema").

Drakes, eu já tinha lido essa notícia da censura chinesa contra a bruxaria e os gays em jornais portugueses, há cerca de 1 mês, e estive mesmo quase para comentar neste mesmo tópico, acabei por não o fazer e fiquei desiludido pela restante malta não o ter feito, ainda bem que me poupaste o trabalho, já subiste mais 1 ponto na minha consideração. :-)

Mas na verdade quando vi que tinhas escrito uma resposta a este tópico, pensei que irias falar sobre o "Criacionismo" no Brasil, que julgo que andaram a tentar infiltrá-lo no programa escolar de Biologia, nas escolas brasileiras, mas não sei como está a situação neste momento... evil-)

Se quiseres ver o tópico inicial onde comecei a falar disso, e onde coloquei um link para a resolução do Conselho Europeu, procura o tópico do filme do realizador Stanley Kramer onde prenderam o professor de Biologia, não me recordo do título, mas pesquisa por "Stanley Kramer" no título do tópico. oops:) :-?
Na verdade eu sou cético sobre o Brasil no que a elite política desses grupos acreditam, JoséMiguel, "Criacionistas evangélicos" ganharam força devido a alianças eleitorais, onde se deram cargos na área social, depois disso quando conseguiram alguma robustez para demarcar espaços por cargos e divisão de dinheiro para ONGs, começaram com essa causa de ensino.

Nos EUA, o cara ser "criacionista" ajuda-o a ser no máximo um policial, aka a ter mais de 50 cargos para distribuir, além de ter uma ONG ligada financiada pelo Estado, concluindo eles acreditam que Deus criou para desfrutarem uma mercê, a causa é um slogan que normalmente como tudo aqui é copiado de algum canto do mundo.

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by drakes » Thu Jul 07, 2016 1:36 am

cartaz de x-men apocalypse censurado...

Image

Até fico pensando quando lançarem um filme com a nova homem ferro, sim é ela, agora teremos uma garota negra (o marketing adorou enfatizar isso) de 15 anos, não vai poder aquelas cenas com a mascara quebrada e o rosto sangrando.

lud81
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by lud81 » Thu Jul 07, 2016 10:43 am

Esse cartaz foi censurado onde e porquê? Não percebi.
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drakes
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by drakes » Thu Jul 07, 2016 2:00 pm

lud81 wrote:Esse cartaz foi censurado onde e porquê? Não percebi.
A Fox foi acusada "de estimular a violência contra mulheres", fez-se campanha, e ela teve que pedir desculpas e remover todos os cartazes.

Helldr
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by Helldr » Thu Jul 07, 2016 2:25 pm

Isto é tão estúpido e hipócrita! Se fosse uma mulher a apertar o pescoço a um homem já não era violência contra os homens... Além de que se trata de uma obra de ficção, de um filme de super-heróis.
A sociedade está cada vez mais regida por imposições politicamente corretas, para tudo aparece logo um coro de indignados!

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by JoséMiguel » Mon Jul 11, 2016 2:38 am

EDIT:

http://www.telegraph.co.uk/films/2016/0 ... strangled/

Relendo com mais calma o artigo sobre a remoção dos póster dos x-men, apesar de eu considerar absurda a situação, parece que não houve nenhuma queixa formal e o estúdio apenas o removeu para evitar eventuais chatisses.

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by drakes » Wed Jul 13, 2016 4:09 pm

Problemas na Índia, mas lá é o Conselho Central de Certificação Filme Indiano (CBFC)

http://www.thenational.ae/arts-life/fil ... nsor-board

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by drakes » Thu Sep 01, 2016 7:43 pm

Sobre fanatismo cristão, o grupo One Million Moms diz que é responsável pelo corte da nova versão dos Muppets na CBS; há controvérsias, mais esclarecimentos:

http://muppet.wikia.com/wiki/One_Million_Moms

Eu entrei na página deles utilizando o TOR, e eles se congratulam por isso, além disso o controle no wi-fi do Macdonalds por todos EUA e a retirada de um comercial de TV.

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by JoséMiguel » Tue Sep 20, 2016 2:20 am

Elementos "novos" acerca da censura ateísta do cinema soviético, e não só...

Há uns meses atrás ouvi com atenção a entrevista e testemunho de uma hora, numa rádio portuguesa, de um padre católico ucraniano, que vive e exerce em Portugal há 20 anos.

Embora a Ucrânia seja um país maioritariamente de denominação cristã ortodoxa (como a maior parte dos países eslavos), este padre está ordenado à diocese católica de Lisboa, pelo que o sujeito é funcionário do Papa em Roma, integrado na equipa católica oficial de Portugal.

Embora eu não tenha tomado nota do nome do padre, não será difícil de o descobrir, pois ele deve ser o único ucraniano que é padre católico em Lisboa (os outros padres ucranianos de Lisboa são de denominação Ortodoxa, e este deu uma entrevista na rádio).

Image

Vou então relatar o que o padre católico relatou na rádio acerca da sua infância nos anos 80 na República Socialista Soviética da Ucrânia, muito relevante para o nosso entendimento do cinema soviético, porque nós estávamos do lado de cá da cortina de ferro, e por isso não sabemos estas coisas:

Ele contou que quando era menino nos anos 80, foi educado por uma avó muito religiosa numa aldeia na Ucrânia, que lhe ensinava/endoutrinava religião cristã às escondidas do resto da sociedade (vizinhos da aldeia), porque essa velhota sabia que podia ir presa por ensinar religião ao neto. [Comentário meu: A velhota era portanto uma fanática religiosa que estava disposta a ser presa em nome da religião] Num certo dia essa velhota obrigou o neto em questão a faltar à escola para celebrar a Páscoa, e o resultado que o padre relatou foi este:

A avó do menino foi imediatamente convocada à escola, onde estava presente um oficial político, representante do governo soviético, que disse à avó que a educação religiosa das crianças só pode ser feita pelo estado, e que é expressamente proibido os familiares ensinarem religião às crianças.

Na entrevista da rádio portuguesa, o padre explicou que as autoridades políticas já estavam prevenidas e atentas para crianças que faltassem à escola primária para ir à igreja celebrar missa da Páscoa. Não aconteceu nada à avó dele, pois ela não se atreveu a repetir a gracinha...

Este relato foi muito enriquecedor para o meu conhecimento do cinema soviético, porque eu já tinha falado aqui no fórum do aspecto de intervenção dos cineastas soviéticos, em particular contra a interdição de religião, e no ano passado até escrevi o seguinte neste mesmo tópico:
JoséMiguel wrote:É verdade que a religião era proibida no cinema russo da era soviética, tal como em Portugal existiam músicas políticas de intervenção contra a ditadura pelo Manuel Freire e Zeca Afonso, a esmagadora maioria dos cineastas russos faziam filmes de intervenção contra a ditadura russa. Tenho um exemplo muito bonito em vídeo por uma realizadora soviética de intervenção, que utilizou o pretexto da 2ª Guerra Mundial, para homenagear a crucificação de Jesus Cristo, que já tinha mostrado no tópico do Waltsouza do cinema feminino:



Pessoalmente sou ateu e acho uma estupidez homenagear contos de fadas religiosos cristãos, mas antes de mais nada sou contra a censura e não acho bem a Rússia Soviética proibir religião no Cinema, por isso tenho de respeitar a luta de intervenção da realizadora Larissa, da mesma forma que respeito a música de intervenção do Zeca Afonso contra o fascismo português.
No entanto, o padre também relata que existiam igrejas abertas a celebrar a missa da Páscoa, pelo que não era proibida a religião na R.S.S. da Ucrânia, o que se passa é que o governo impunha que a educação religiosa das crianças menores (ateísmo portanto) fosse feita pelas escolas públicas (não existiam escolas privadas pois tal conceito seria capitalista e subversivo).

Saliento que este relato se passou na década de 1980, num país amigo do Kremlin em três vertentes:

1) País cultural e historicamente amigo da Rússia.
2) País aliado militar histórico, em oposição a países anexados à força como a Polónia, com governo fantoche.
3) País europeu, que não foi anexado pelos czares durante o imperialismo russo, como o Turquistão, Mongólia e países muçulmanos da Pérsia Antiga, onde mais tarde o Estaline matou os religiosos todos.

Primeira Conclusão

Julgo que este relato que fiz da entrevista do padre ucraniano (que deve ter a minha idade) esclarece alguns pouquíssimos aspectos do porquê da existência de cinema de intervenção soviético a promover a religião cristã. Tal como no meu exemplo do vídeo apresentado, do filme da realizadora Larissa, eu fartei-me de ler no Wikipedia muitos outros exemplos de intervenção pró-religiosa em míticos e prestigiados filmes soviéticos.


Parte II - Comentários e Análise

Eu gostaria de comparar a censura do cinema soviético com a censura dos cinemas americano, europeu e árabe, e da forma como pessoalmente encaro esses conceitos de censura, todos eles vergonhosos.

Começo por dizer que sou um português ateu, não baptizado, e que aos 3 anos de idade viajei para a Arábia Saudita, pois o meu pai estava lá emigrado ao serviço de uma multinacional norte-americana. O meu pai contou-me que houve um problema sério com o meu visto de entrada:

Que problema poderá um menino português com 3 anos de idade possuir para a embaixada da Arábia Saudita lhe negar a entrada?

O problema é que eu era ateu e não baptizado! De acordo com as leis religiosas da Arábia Saudita eu não podia entrar no país!

Um cristão, ou budista podia entrar mas um ateu não podia!

Já agora, o meu pai que já lá estava a trabalhar, não teve nenhum problema, porque o meu avô teve de o baptizar na religião católica para ele poder transitar para a 3ª ou 4ª classe da escola primária, segundo alguma lei sinistra do Salazar da década de 1940.

Antes de eu revelar como o Reino da Arábia Saudita autorizou o meu visto de entrada, gostaria que espreitassem este vídeo do You tube, em que entrevistam muçulmanos e perguntam o que eles acham de ateus. Reparem que um gajo muçulmano aceita outros fanáticos religiosos sejam judeus, budistas, cristãos ou até satânicos ou bruxas, mas um ateu como eu (que sou pessoa e vivo num estado de direito em Portugal) é considerado um animal sub-humano como os judeus eram considerados "Untermensch" pelas S.S. da Alemanha Nazi.
Untermensch (alemão para subumano; plural: Untermenschen) é um termo da ideologia racista nazi usada para descrever "povos inferiores", especialmente "as massas do Leste", isto é, judeus, ciganos, polacos, sérvios, outros povos eslavos como russos e bielorrussos, e quaisquer outros não enquadrados na "raça ariana" de acordo com a terminologia racial nazista contemporânea.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Untermensch
É assim que eu sou visto por um muçulmano, pelo facto de eu ser ateu... :roll: :-(



(continuação da análise noutro dia)

PanterA
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by PanterA » Tue Sep 20, 2016 4:06 am

E como que eles sabiam que não eras baptizado? Btw, tiro-te o chapéu por aos três anos já teres discernimento e raciocino para seres ateu. Olha que eu só consegui "abrir os olhos" aos 16 anos. :P

JoséMiguel
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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by JoséMiguel » Tue Sep 20, 2016 4:40 am

Interlúdio

No intervalo do meu comentário, queria destacar que o compositor da banda sonora do clip de intervenção da realizadora Larissa Shepitko, é o grandioso Alfred Schnittke, não muito conhecido no bloco militar da NATO (a nossa zona).

Image
Alfred Schnittke (November 24, 1934 – August 3, 1998)

Eu já tinha falado deste conceituado compositor de bandas sonoras do bloco de leste, na minha crítica do filme "Pohadka o putovani" (Conto das Viagens)", onde mostrei um clip tocado por um pianista russo, que ficou todo contente por eu divulgar a performance dele aqui no fórum de Portugal, tão distante da Rússia não apenas em quilómetros, mas pelos estragos do bloqueio do cinema soviético em Portugal, durante a Guerra Fria.



Um vídeo muito bonito que encontrei no You Tube, com música do compositor Alfred Schnittke, ilustrado com pinturas de nú, entitulado "Polyphonischer Tango", que se calhar todas as correntes e doutrinas de cinema teriam censurado por motivos religiosos, nos anos 1950:


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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by JoséMiguel » Tue Sep 20, 2016 4:42 am

PanterA wrote:E como que eles sabiam que não eras baptizado? Btw, tiro-te o chapéu por aos três anos já teres discernimento e raciocino para seres ateu. Olha que eu só consegui "abrir os olhos" aos 16 anos. :P
Pantera, irei responder-te noutro dia, quando escrever a continuação desta análise complicada. :-)

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Re: Censura no Cinema: Antes e agora...

Post by No Angel » Tue Sep 20, 2016 12:19 pm

JoséMiguel wrote:Elementos "novos" acerca da censura ateísta do cinema soviético, e não só...

Há uns meses atrás ouvi com atenção a entrevista e testemunho de uma hora, numa rádio portuguesa, de um padre católico ucraniano, que vive e exerce em Portugal há 20 anos.

Embora a Ucrânia seja um país maioritariamente de denominação cristã ortodoxa (como a maior parte dos países eslavos), este padre está ordenado à diocese católica de Lisboa, pelo que o sujeito é funcionário do Papa em Roma, integrado na equipa católica oficial de Portugal.

Embora eu não tenha tomado nota do nome do padre, não será difícil de o descobrir, pois ele deve ser o único ucraniano que é padre católico em Lisboa (os outros padres ucranianos de Lisboa são de denominação Ortodoxa, e este deu uma entrevista na rádio).

Image

Vou então relatar o que o padre católico relatou na rádio acerca da sua infância nos anos 80 na República Socialista Soviética da Ucrânia, muito relevante para o nosso entendimento do cinema soviético, porque nós estávamos do lado de cá da cortina de ferro, e por isso não sabemos estas coisas:

Ele contou que quando era menino nos anos 80, foi educado por uma avó muito religiosa numa aldeia na Ucrânia, que lhe ensinava/endoutrinava religião cristã às escondidas do resto da sociedade (vizinhos da aldeia), porque essa velhota sabia que podia ir presa por ensinar religião ao neto. [Comentário meu: A velhota era portanto uma fanática religiosa que estava disposta a ser presa em nome da religião] Num certo dia essa velhota obrigou o neto em questão a faltar à escola para celebrar a Páscoa, e o resultado que o padre relatou foi este:

A avó do menino foi imediatamente convocada à escola, onde estava presente um oficial político, representante do governo soviético, que disse à avó que a educação religiosa das crianças só pode ser feita pelo estado, e que é expressamente proibido os familiares ensinarem religião às crianças.

Na entrevista da rádio portuguesa, o padre explicou que as autoridades políticas já estavam prevenidas e atentas para crianças que faltassem à escola primária para ir à igreja celebrar missa da Páscoa. Não aconteceu nada à avó dele, pois ela não se atreveu a repetir a gracinha...

Este relato foi muito enriquecedor para o meu conhecimento do cinema soviético, porque eu já tinha falado aqui no fórum do aspecto de intervenção dos cineastas soviéticos, em particular contra a interdição de religião, e no ano passado até escrevi o seguinte neste mesmo tópico:
JoséMiguel wrote:É verdade que a religião era proibida no cinema russo da era soviética, tal como em Portugal existiam músicas políticas de intervenção contra a ditadura pelo Manuel Freire e Zeca Afonso, a esmagadora maioria dos cineastas russos faziam filmes de intervenção contra a ditadura russa. Tenho um exemplo muito bonito em vídeo por uma realizadora soviética de intervenção, que utilizou o pretexto da 2ª Guerra Mundial, para homenagear a crucificação de Jesus Cristo, que já tinha mostrado no tópico do Waltsouza do cinema feminino:



Pessoalmente sou ateu e acho uma estupidez homenagear contos de fadas religiosos cristãos, mas antes de mais nada sou contra a censura e não acho bem a Rússia Soviética proibir religião no Cinema, por isso tenho de respeitar a luta de intervenção da realizadora Larissa, da mesma forma que respeito a música de intervenção do Zeca Afonso contra o fascismo português.
No entanto, o padre também relata que existiam igrejas abertas a celebrar a missa da Páscoa, pelo que não era proibida a religião na R.S.S. da Ucrânia, o que se passa é que o governo impunha que a educação religiosa das crianças menores (ateísmo portanto) fosse feita pelas escolas públicas (não existiam escolas privadas pois tal conceito seria capitalista e subversivo).

Saliento que este relato se passou na década de 1980, num país amigo do Kremlin em três vertentes:

1) País cultural e historicamente amigo da Rússia.
2) País aliado militar histórico, em oposição a países anexados à força como a Polónia, com governo fantoche.
3) País europeu, que não foi anexado pelos czares durante o imperialismo russo, como o Turquistão, Mongólia e países muçulmanos da Pérsia Antiga, onde mais tarde o Estaline matou os religiosos todos.

Primeira Conclusão

Julgo que este relato que fiz da entrevista do padre ucraniano (que deve ter a minha idade) esclarece alguns pouquíssimos aspectos do porquê da existência de cinema de intervenção soviético a promover a religião cristã. Tal como no meu exemplo do vídeo apresentado, do filme da realizadora Larissa, eu fartei-me de ler no Wikipedia muitos outros exemplos de intervenção pró-religiosa em míticos e prestigiados filmes soviéticos.


Parte II - Comentários e Análise

Eu gostaria de comparar a censura do cinema soviético com a censura dos cinemas americano, europeu e árabe, e da forma como pessoalmente encaro esses conceitos de censura, todos eles vergonhosos.

Começo por dizer que sou um português ateu, não baptizado, e que aos 3 anos de idade viajei para a Arábia Saudita, pois o meu pai estava lá emigrado ao serviço de uma multinacional norte-americana. O meu pai contou-me que houve um problema sério com o meu visto de entrada:

Que problema poderá um menino português com 3 anos de idade possuir para a embaixada da Arábia Saudita lhe negar a entrada?

O problema é que eu era ateu e não baptizado! De acordo com as leis religiosas da Arábia Saudita eu não podia entrar no país!

Um cristão, ou budista podia entrar mas um ateu não podia!

Já agora, o meu pai que já lá estava a trabalhar, não teve nenhum problema, porque o meu avô teve de o baptizar na religião católica para ele poder transitar para a 3ª ou 4ª classe da escola primária, segundo alguma lei sinistra do Salazar da década de 1940.

Antes de eu revelar como o Reino da Arábia Saudita autorizou o meu visto de entrada, gostaria que espreitassem este vídeo do You tube, em que entrevistam muçulmanos e perguntam o que eles acham de ateus. Reparem que um gajo muçulmano aceita outros fanáticos religiosos sejam judeus, budistas, cristãos ou até satânicos ou bruxas, mas um ateu como eu (que sou pessoa e vivo num estado de direito em Portugal) é considerado um animal sub-humano como os judeus eram considerados "Untermensch" pelas S.S. da Alemanha Nazi.
Untermensch (alemão para subumano; plural: Untermenschen) é um termo da ideologia racista nazi usada para descrever "povos inferiores", especialmente "as massas do Leste", isto é, judeus, ciganos, polacos, sérvios, outros povos eslavos como russos e bielorrussos, e quaisquer outros não enquadrados na "raça ariana" de acordo com a terminologia racial nazista contemporânea.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Untermensch
É assim que eu sou visto por um muçulmano, pelo facto de eu ser ateu... :roll: :-(



(continuação da análise noutro dia)
Eu não sigo nenhuma religiao (considero-me agnostico), mas eu acho imoral e aberrante a censura anti-religiosa da URSS e a perseguição que fizeram a quem seguisse uma religiao, e parece que tu estás a defender isso?! :shock:

As pessoas não tem direito a seguir a sua religiao? São logo "fanaticas" pra ti?! Não, fanáticas eram as politicas da URSS que queriam abolir a força a religiao, quando cada um tem direito a seguir ou não uma religiao e a acreditar no que quiser.

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