The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

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The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por THX » fevereiro 20, 2014, 12:08 pm

História:

Emmet é uma mini-figura da LEGO, anónima, absolutamente escrupulosa e mediana, que é confundida não só como alguém absolutamente especial e extraordinário, mas também como a chave para a salvação do mundo, vendo-se recrutada para uma aliança de estranhos, conhecidos como "Os Construtores", numa grande aventura para impedir o terrível tirano da LEGO, "Lorde Negócios", de colar todo o universo.





"No fim-de-semana de estreia nos EUA, «O Filme Lego» arrecadou cerca de 69 milhões de dólares nas bilheteiras, tornando-se a segunda maior estreia de sempre no mês de fevereiro."

É assim...eu tinha de escrever forçosamente sobre este filme que se está a tornar num fenómeno a nível mundial e vou explicar o porquê :

- "O LEGO é um brinquedo produzido pelo LEGO Group, cujo conceito original se baseia em um sistema patenteado de peças de plástico que se encaixam, permitindo inúmeras combinações. É fabricado desde meados da década de 1950, popularizando-se em todo o mundo desde então".
(fonte Wikipedia)

- Os Legos foram uns dos meus principais brinquedos durante toda a minha infância, nos anos 70.
São altamente recomendáveis pois apuram a destreza e a imaginação de qualquer criança/jovem com a sua particularidade de ser completamente versáteis. Eu conseguia fazer todos os dias um novo brinquedo, diferente. Hoje tinha um avião...amanhã um carro dos bombeiros, etc.
Lembro-me perfeitamente de fazer uma réplica do "space-shuttle" "Columbia", com o tecto a abrir-se e a sair de lá o laboratório espacial (tal como na nave original). O problema é que de tão bem feita a minha mãe não ma deixar desmontar , o que se tornou num martírio para mim pois precisava de peças para construir um robot. Eu e o meu irmão passávamos horas e horas a brincar com as centenas de peças coloridas. Infelizmente com o tempo, e com algumas mudanças de casa, perdi as peças na sua quase totalidade mas neste momento estou novamente a colecionar legos, com o meu filho de 6 anos.

- A primeira vez que eu vi um trailer sobre este filme foi quando fui ver um filme infantil com o meu pequenito e adorei o que vi. Acima de tudo acho que qualquer pessoa vai achar piada a esta ideia que decerto já irá ter um LEGO II na fornalha. O filme é simplesmente hilariante, não só por conter umas boas piadas verbais, mas por visualmente também ser de partir a rir.

- Por esta altura os Legos já não deveriam existir, mas admiro imenso a visão que a marca dinamarquesa teve ao longo de todos estes anos, demonstrando sempre, e de uma forma notável, como se conseguiu adaptar a uma série de obstáculos que perigavam o seu futuro.
Numa era digital fizeram dezenas de video-jogos, mantendo parcerias com multinacionais como a SONY a WB e a Marvel, resultando por exemplo num jogo espectacular que eu ofereci ao meu filho neste natal - "Super-heróis Marvel da LEGO"

Imagem

que é um jogo extremamente apetecível e que mais uma vez nos leva a redescobrir este mundo tridimensional fascinante.

Depois dos legos em peças para os 3 anos até aos Legos "Thecnic", depois dos video-jogos, temos pela primeira vez um filme, que promete não ser o último.
Para este já tenho o meu bilhete reservado e o meu filho não pára de me perguntar quando é que chega a altura para ir ver este "acontecimento". O engraçado é que eu sinto-me como se também fosse uma criança ansiosa.

Falta exactamente uma semana para "O filme LEGO - Uma aventura" estrear, a 27 de Fevereiro nas salas portuguesas em 2D e 3D.
Os meus 200 filmes inesquecíveis :
http://www.imdb.com/list/ls077088728/?s ... s077088728

rui sousa
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por rui sousa » fevereiro 20, 2014, 3:09 pm

Acho que vais gostar muito THX. Eu vi ontem, dobrado em português (o filme só vai chegar cá nessa versão por a distribuidora não considerar rentável ter a original também, depois de flops com animações anteriores - mas ao menos está muito bem feita!), e adorei, amei este filme. Não só porque brinca muito bem com o próprio conceito da marca e do brinquedo, como também pelas piadas (que as crianças só perceberão uns 10%) e pela inventividade que deram a uma história que poderia ser banal noutras mãos e noutro contexto.
No visionamento a distribuidora convidou, pela primeira vez, a que se trouxesse uma criança. Trouxe o meu sobrinho comigo (foi o único petiz da sala). Uma senhora da distribuidora veio falar com ele, e perguntou se tinha gostado do filme. Ele: «Muito!». Ela: «E de zero a dez, quanto é que davas?». Ele: «DEEEZ!» :mrgreen: Não vou dar tanto, mas sinceramente, este filme do LEGO é mesmo para não perder. É talvez a melhor amostra do que é um verdadeiro filme familiar desde o Toy Story 3: todos os elementos da família vão adorar o filme! :-D

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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por THX » fevereiro 20, 2014, 4:39 pm

É talvez a melhor amostra do que é um verdadeiro filme familiar desde o Toy Story 3: todos os elementos da família vão adorar o filme! :-D
Vai ser um daqueles casos em que os pais não vão apenas dar "boleia" e acompanhar os seus filhos ao cinema. Acredito, como no meu caso, que muita gente vai ser impulsionada por aquela nostalgia de um dia terem brincado com este(s) brinquedo(s) mágico(s) e de quererem sentir-se um pouco crianças novamente.

O filme tem cativado muita gente também porque...afinal quem é que nunca brincou com legos?
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por spiderze » fevereiro 23, 2014, 1:26 pm

Obrigado Rui Sousa pela dica, não sabia se iria valer a pena apesar de ir arriscar na mesma.Assim com a tua critica positiva vou com mais certeza ver o flilme.

Samwise
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Samwise » março 2, 2014, 12:58 am

Fui ver o filme hoje e achei incrivelmente mau. evil-) Ainda não arrefeci da má experiência que foi ver esta bodega!

Tal com o THX, cresci trendo o Lego como o principal e favorito brinquedo - como entretém e como motor didático para a imaginação e criatividade. A variedade e abrangência de possibilidades não tem praticamente limites em conceitos deste género ("várias peças diferentes, muitas formas de as agregar"), e o Lego é aquele que melhor sabe tirar proveitos dos pequenos detalhes que tanto fazem a diferença. Não me espanta que seja uma marca que tenha conseguido sobreviver à época do digital mantendo-se primariamente centrada num produto que é físico, mesmo que não tenham renegado por completo as novas tecnologias - a Lego soube adaptar-se e moldar-se aos tempos sem nunca tirar o foco do seu conceito principal.

Agora, o que fizeram com este filme - que não tenho a menor dúvida de que irá gerar receitas milionárias em todos os países onde estreie, por conta do valor de uma marca, e do chamariz que devido a ela puxa tanto pais como filhos para as salas - foi vergonhoso.

A história é uma caldeirada disparatada e absurda, idiota até à raiz, dos mais diversos clichés-homenagem a filmes, personagens e referências culturais famosos (Star Wars, LOTR, Matrix, heróis da DC, Tron, Piratas das Caraíbas, westerns, sociedades distópicas, to name a few), enfiados a granel numa montagem ao estilo motion-stop (feita digitalmente, suponho) acelerada a uma velocidade que não deixa espaço para seguir nada do que se está a passar no ecrã - a confusão abunda. O facto de se centrar sobre bonecos e cenários feitos de milhentas peças, com capacidade, e sobretudo com vontade, para se montarem e desmontarem frame-sim frame-não, fazem deste filme uma espécie de Transformers (versão Michael Bay) da animação, com todos os defeitos do CGI que assolavam esses filmes, transpostos aqui para o mundo da Lego, e passados a um ritmo ainda mais vertiginoso.

De nada servem alguns (poucos) momentos de lucidez e mais uma ou outra ideia bem aproveitada que escapam ao desvairo monumental que afunda o filme. A panorâmica geral que mostra a cidade a acordar no início do filme, por exemplo, quase nos dá a ilusão de que a Metropolis de Lang possa ter sido uma das referências abordadas, mas é sol de pouca dura, porque logo a seguir a lógica que tudo domina é a do fast-food, a do consumo rápido e descartável, em que o interesse é acima de tudo encher o ecrã de movimento - movimento non-stop - e fazer as personagens debitarem piadas (e mais piadas, e mais piadas...) o mais rápido que os lábios dos actores que os dobram conseguem, para não dar espaço ao espectador para pensar na idiotice pegada a que está a assistir. Penoso.

Apesar de tudo, e como há um nome intocável que se sobrepõe a qualquer crítica, o filme vai ser um sucesso nas bilheteiras e provavelmente originará uma série de sequelas igualmente acéfalas e rentáveis. Não estou alheio à onda de boas críticas que o filme recebeu na América, mas para mim foi uma desilusão completa - um dos piores filmes de animação que vi nos últimos anos, com a agravante de ter o selo da Lego em cima. Ao menos as minhas crianças gostaram... aparentemente. Não dou o dinheiro dos bilhetes por deitado à rua a 100%... :|
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por nimzabo » março 2, 2014, 10:21 am

Eu não vi e não posso falar mas quando soube que era dos mesmos autores dos Chovem Almondegas achei que era mau sinal.
As animações são boas mas os argumentos dos Chovem Almondegas são mauzinhos, especialmente no caso do primeiro.

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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por rui sousa » março 2, 2014, 9:15 pm

Não é um filme para todos os gostos, mas NUNCA o poria no nível de esterco do Michael Bay. Este filme tem inteligência... discordo totalmente da opinião do Sam. A opinião crítica lançada pelo site do roger ebert (não escrita por ele, obviamente) diz tudo aquilo que eu acho. Daqui a pouco posto aqui a crítica que escrevi para o Espalha Factos.

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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por rui sousa » março 2, 2014, 10:34 pm

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O Filme LEGO - bonecada para miúdos e graúdos

Já é uma das sensações do ano, angariando elevadíssimos lucros nos EUA. Agora, O Filme LEGO chega a Portugal para continuar a proeza que tem conquistado um pouco por todo o mundo. Mas atenção: este não é um filme de animação qualquer, sendo dos poucos que consegue mesmo ser para o divertimento de toda a família.

Emmet é um trabalhador irrelevante, que se limita a cumprir as suas funções quotidianas enquanto mini-figura da LEGO. De repente, devido a um pequeno acidente, ele é confundido como o indivíduo especial e extraordinário que pode ser a salvação para enfrentar as maléficas intenções do Lorde Negócios, o líder ditatorial da cidade que tem um plano diabólico para acabar com a tranquilidade do universo.

O Filme LEGO está a receber uma invulgar aclamação dentro do género que se enquadra, destacando-se de um sem número de apostas insípidas e repetitivas que preenchem o mercado do Cinema de animação. E merece-o, pois de todas as obras cinematográficas que utilizam a expressão “filme familiar” para levar Pais e petizes à sala , esta é das poucas que justamente se auto-nomeou como tal.

Talvez desde Toy Story 3  que não se via um filme assim, um objeto satírico, inteligente e brilhante, que mexe a pequenada e a gente mais crescida de formas muito diferentes: enquanto as crianças ficam maravilhadas pela soberba animação e pelo lado “fixe” da narrativa, os adultos têm oportunidade de encontrar uma crítica à sociedade moderna que não se fica só por isso, possuindo várias camadas de subtileza que desafiam o mais moderno e complexo dos filmes de “imagem real”.

O Filme LEGO  representa um daqueles raros acontecimentos cinematográficos em que todo o público se consegue divertir e retirar alguma coisa especial. É da essência do ser humano, e daquilo que torna cada um de nós único e insubstituível, que se fala primordialmente nesta trama de amor, amizade, família e aventura. E a fita não se limita a transmitir essa mensagem com alguma fórmula já considerada gasta e irrelevante: vemos a narrativa dar várias voltas em si própria, a mostrar-nos sempre umas quantas novas surpresas, e a desafiar a própria perspetiva que estamos a tirar do filme.

É uma história que nos deixa maravilhados, é um impressionante fresco da animação moderna e das suas potencialidades (que, felizmente, não se limitam só às proezas das técnicas acessórias desenvolvidas por Hollywood), e é também um blockbuster  diferente, que, tal como há algumas décadas era hábito, aproveita o seu efeito pipoca para enganar o espectador. Sim, porque estão completamente enganados se pensam que irão ver mais uma proposta sensaborona e entediante, com a bonecada que anima sempre a criançada.

Estamos num mundo imaginário, tão bem construído e idealizado, em que a própria LEGO se autocritica e brinca com alguns dos franchises que a marca transformou em colecções dos seus intemporais brinquedos. Uma autêntica metralhadora de piadas, muitas delas que nos passam ao lado (e ainda mais das crianças), e que pegam em referências pop que são desconstruídas e alegremente ridicularizadas.

Obra surpreendentemente profunda que nos faz pensar nas tão suaves e manipuladoras tentativas que o sistema cria para nos alienar e nos integrarmos socialmente num colectivo vazio e sem ponta de interesse individual, O Filme LEGO possui uma grande espectacularidade visual, sentimental e mesmo… filosófica.

Sim, tem os seus clichés, mas não são essenciais. Sim, tem as suas infantilidades, mas quem pensa que a infantilidade ultrapassa o tempo curto em que somos crianças (e por lá se fala nisso também)? Sim, é um filme mainstream, cujas opiniões críticas que forem escritas não afectarão em nada os crescentes lucros que tem obtido no box-office mundial. E depois? Qual é o problema, se estamos perante um grande filme cómico de aventuras, que recupera os clássicos não por ser como eles, mas por ter o mesmo espírito de auto descoberta e de reinvenção constante dos seus materiais criativos e visuais?

O Filme LEGO  é um espantoso feito visual, imparável e impagável, com muita coisa para ser contemplada. As múltiplas reviravoltas da sua estrutura e a surpresa constante que nos oferece fazem deste filme uma peça rara na animação moderna, multifacetada e high-tech, que está tão presente no mercado cinematográfico que quase se tornou uma espécie de rotina repetitiva e desinteressante. São filmes como este que dão nova fé ao Cinema de animação e nos fazem ver como há ainda pessoas e histórias que querem alterar aquilo que já vimos milhões de vezes.

Uma nota final para a dobragem portuguesa: a distribuidora decidiu, por motivos de mercado, lançar apenas no nosso país esta versão do filme. Se bem que se possa perder algum do timing das piadas na versão original (é algo inevitável), a adaptação sabe dar a volta e ser tão subtil e irónica como a essência da história pede. Consegue igualmente ser hilariante e captar o espírito humorístico, e os Pais não se arrependerão nada de irem com os mais pequenos à próxima sessão de O Filme LEGO. Todos vão trazer alguma boa lembrança para casa, para as conversas do dia a dia e mesmo para a alma e para o coração.

8.5/10
In http://www.espalhafactos.com/2014/03/01 ... e-graudos/

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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Samwise » março 3, 2014, 12:08 am

rui sousa Escreveu:Não é um filme para todos os gostos, mas NUNCA o poria no nível de esterco do Michael Bay. Este filme tem inteligência... discordo totalmente da opinião do Sam.
Eu comparei o Lego com o Transformers do Bay numa vertente específica: a confusão monumental de "peças" e detritos que se espalham em movimento por todo o ecrã quando há "transformações", destruições e sequências de tiroteio, algo que torna impossível para o espectador seguir o que se está a passar. Isto é literal e sucede diversas vezes ao longo do filme. É mesmo muito irritante. Quanto ao modelo narrativo, comparo-o a outra coisa bem pior, à saga "Scary Movie": uma sucessão de sequências a gozar, retiradas de outros filmes ou de referências culturais mais que estafadas, e que vão preenchendo espaço de fita de forma "supercool" sem que nada de particularmente útil se ganhe com isso. grr-)

Também tenho uma opinião mais extensa para escrever, com outras "queixas" que ficaram por expor no texto de ontem, mas ainda não tive tempo para a organizar.

Quanto ao Bay, acho que tem dias. É capaz do razoável e do execrável. :mrgreen: O último dele - Pain and Gain - conseque quase ser um bom filme. Vale a pena espreitar.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Lorde X » março 3, 2014, 1:21 am

Vi hoje e gostei bastante! yes-)

Este filme tenta apelar (e a meu ver consegue-o com distinção) a duas diferentes gerações.
Por um lado, está repleto de referências que serão percetíveis pela minha geração (tenho 43 anos), mas não pelos adolescentes de hoje. Por outro lado, essas referências são disparadas (a palavra que se adequa é mesmo esta) a uma velocidade que é própria da geração actual, enquanto a minha aprecia saborear mais pausadamente cada cena, cada piada.
No início, essa rapidez de diálogo, que também já vi presente noutros filmes de animação recentes, fez-me alguma confusão, até que me conformei com o facto de que não iria conseguir interiorizar tudo no primeiro visionamento. Quando o fiz, comecei a usufruir mais do filme.

Quanto ao tema da história, obviamente que a maioria das ideias aqui vistas foram recicladas de outros filmes. Mas não é isso que normalmente sucede? O Matrix, oportunamente invocado pelo Samwise, não recicla a ideia do Tron (e não só) e os visuais do Dark City? E se formos falar de reciclagem de temas e ideias, então o Star Wars… Mas podemos se calhar estender esta conversa a outras áreas artísticas e não só. Não será a forma mais usual / correcta, de avançar, a que se baseia no alcançado por outros, para lhe adicionar um novo degrau?

Neste filme, achei extremamente apropriada e inteligentemente executada a ideia de vários mundos (os vários ambientes dos Legos) separados por fronteiras, e a oposição entre gerações e duas distintas formas de ver / interagir com os brinquedos.
A mim isto disse-me muito pois é algo com que me deparo no meu dia-a-dia. Tendo uma filha de quase 5 anos (que também viu o filme e adorou), passo muito do meu tempo a separar os brinquedos por temas e caixas, enquanto ela num ápice mistura tudo… :mrgreen: Enquanto eu, nos meus tempos de meninice, pegava nos índios e confrontava-os com os Cowboys, ela já é capaz de pegar nas princesas da Disney e colocá-las a ajudar o Jake a lugar contra o Capitão Gancho… Esse quebrar das fronteiras, essa forma diferente de sentir e viver a infância, espelha o que se passa comigo, e se calhar com muitos dos pais de hoje.
Hoje as crianças são muito rápidas, apreendem tudo muito mais depressa. Hoje uma criança que ande na pré-primária, tira fotos, faz vídeos, mexe com uma facilidade incrível num PC, num tablet, num smartphone… Então um adolescente nem se fala… Sem querer levar o assunto noutra direção, considero ridículo a lei ainda considerar os 18 anos como o início da maioridade, e ser inimputável criminalmente quem não os tenha…

Visualmente este filme consegue ser um assombro...E se pensarmos que são "apenas" peças de Lego, mais surpreendente isso consegue ser. Cenas de acção que fazem inveja a muitos blockbusters de grande orçamento...

Em suma, adorei, mas tenho a certeza que ainda irei gostar mais quando o vir pela segunda vez, em que terei oportunidade de reparar em muitas das ideias e referências que me passaram despercebidas, pela rapidez com que foram despejadas no ecrã.

Apesar de ser um filme que, pelo menos cá, está para maiores de 4 anos, será também apreciado por adolescentes, embora duvide que percebam a grande maioria das referências. Quanto às crianças, para minha estranheza, a minha filha gostou bastante do filme. Enquanto ele decorria, julguei que ela não iria apreciar por envolver tantas cenas de acção, às quais as meninas são um pouco avessas, mas também pelo facto de o tema da história não ser percetível para uma criança tão pequena. Pois enganei-me. Ela adorou!
Já tenho maiores dúvidas que vá apreciar o filme quem tenha muito mais idade do que eu. A linguagem rápida, por um lado, e um tema e referências que lhe são estranhas, por outro, não irão entusiasmar uma geração mais velha.
Após este primeiro visionamento, dou-lhe 9/10 (Muito Bom). A ver vamos quanto lhe darei após um segundo… Mas tenho vontade que haja um segundo, e isso já quer dizer muito…
Última edição por Lorde X em março 4, 2014, 1:41 am, editado 1 vez no total.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por THX » março 3, 2014, 7:52 pm

Vi-o ontem e basicamente as reviews do Rui e do Lorde já dizem tudo sobre o que eu achei do filme, mas quando tiver mais um tempo farei a minha também.
Posso apenas dizer que fiquei agradavelmente surpreendido.
Os meus 200 filmes inesquecíveis :
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Samwise » março 5, 2014, 9:41 pm

Penso que já nã vou editar mais o texto, por isso aqui fica:

Aviso: o seguinte texto contém spoilers/revelações sobre o enredo de O Filme Lego.

É sabido de fonte segura que as boas intenções fazem fila à porta inferno, aguardando que os arautos de mefistófeles venham indicar a câmara de sofrimento que lhes está reservada, a fim de suportarem as tormentas da danação enterna. Apenas assim de compreende como esta película de animação para "crianças e adultos", didática até ao limite do moralismo bem comportado e displicente, conseguiu chegar às salas de cinema aqui pelo piso zero. Entende-se que hoje em dia é comercialmente arriscado colocar nas salas filmes que obriguem a pensar - ou mesmo que deem tempo suficiente ao espectador para que este o possa fazer... por sua iniciativa. O mundo não está para aí virado: as rotações cada vez mais rápidas da vida moderna geram preguiça, potenciam que as pessoas agradeçam(!) que pensem por elas nos tempo de lazer - desligar o raciocínio por uns instantes é bom para recuperar os rácios de actividade "normais" nos centros de decisão. O mais recente filme da Lego destaca-se precisamente neste capítulo: o da imbecilização cúmplice, voluntária e agradecida por parte da plateia.

Chega até aí por conta de um enredo com a espessura intelectual de uma folha papel vegetal, plagiando e pilhando daqui e dali, e remendado os retalhos com duas tiras de fita-cola (ironia das ironias, um enredo que apregoa aos sete ventos a importância da criatividade e do "livre pensamento" - é essa, aliás, a sua principal mensagem mobilizadora); por conta também da repetição ad-nauseum de referências cinéfilas cool mais do que estafadas (todas de identificação imediata - não para entreter as crianças, que não as apanhariam de qualquer maneira, mas para os pais terem qualquer coisa a que se agarrar: o conforto amparado nalguns grandes sucessos do cinema de Hollywood, como Matrix - saga onde O Filme Lego vai buscar o fio condutor da distopiazita tecnológica e do zé ninguém com falta de auto-estima que se vai tornar no "escolhido", e consequentemente salvar do mundo -, Star Wars, Terminator, The Lord of the Rings, Flash Gordon, etc, etc, a lista é longa); por conta ainda da aceleração da montagem até à velocidade warp estonteante em que nada se distingue no ecrã - um pouco à laia da "desenvoltura artística" a que Michael Bay nos habituou nas sequências de acção dos mais recentes capítulos da saga Transformers: montanhas, resmas, paletes de partícula, peças, componentes e detritos, todos muito coloridos e texturados, a espalharem-se pelo ecrã em todas as direcções, filmados por vinte câmaras distribuidas em vinte pontos de vista diferentes, para que no fim caibam vinte planos "na esgalha" em dois segundos de fita editada. Não importa tornar nítido o que está a suceder aos elementos dentro das coreografias, não importa que não se consiga distinguir de que trata em concreto a acção, importa antes cativar a plateia berrando-lhe aos ouvidos, enchendo-lhe o campo de visão com movimentos vertiginosos e cores garridas. E a Lego - marca, brinquedo, conceito, universo -, assente que está numa estrutura feita de pequenas peças interactivas, fornece o tipo de dimensão perfeita onde este crime pode ser impunemente praticado: o assassinato consentido e condescendente do cérebro do espectador - estamos no território do vale tudo a céu aberto, em que a narrativa metaforiza a bel-prazer as brincadeiras das crianças no plano real, ou seja, sempre que se encontrem um beco-sem saída, toca de inventar um plano de fuga no momento, de construir uma geringonça que permita escapar para outro mundo (uma mota num segundo, um submarino em dois, uma nave espacial em três), toca de fazer aparecer do nada mais personagens para a ajudar à briga, toca de misturar as peças do Star Wars com as dos heróis da DC, Batman, Mulher Maravilha, e por aí fora. A intenção é boa no papel, mas esfrangalha qualquer intenção de dotar a narrativa de uma lógica, tornando pelo caminho o mecanismo Deus Ex Machina numa norma rotineira, retirando-lhe o efeito surpresa do in-extremis vindo do nada que lhe dá o nome. Algo que não sucedia, por exemplo, em Força Ralph!, obra que também misturava vários universos e personagens distintos de forma promíscua, mas em que os factos narrativos obedeciam quer à lógica de cada universo, quer à explicitação faseada das regras que regiam cada uma das personagens dentro desses contextos - nada era forçado ou atirado ao acaso seguindo a fórmula da "fuga para a frente".

É (ou era) também boa a intenção de estabelecer um paralelo entre a personagem de Emmet, o boneco que personifica "o escolhido" no mundo lego, e a personagem da criança que no mundo real brinca com ele, atribuindo depois ao seu Pai a equivalência da figura do ditador tirânico "Lorde Negócios", que pretende colar - com uma bisnaga de cola gigante - as peças todas no mundo imaginário. Este conflito entre pai e filho gira em torno dos objectivos de cada um - enquanto que o Pai/Lorde Negócios tenciona fazer do mundo lego um lugar estático, a maquete de uma cidade que não serve para brincar, seguindo o manual de construção de cada peça à risca, e deixando depois os resultados inalterados/colados, Emmet/filho pretende libertar-se das amarras e usar as peças misturando-as, destruindo para construir diferente, seguindo o impulso e a criatividade do momento, ao sabor das aventuras que vai imaginando (em confronto, basicamente, as duas formas de brincar com o Lego na vida real). O problema é a abordagem ao assunto, e surge aqui de novo a questão da imbecilização consentida do espectador, devido neste caso à infantilização patética da figura do pai, que para além disso muda de atitude/filosofia em menos de um fósforo (para que a mensagem seja tão explícita e fácil de apreender quanto possível, suponho). Um problema que de resto não é exclusivo deste filme (basta ligar o canal Disney para apanhar uma sucessão de séries adolescentes que fazem das figuras paternas idiotas bem humorados). Engula quem quiser. Vou apenas mencionar um nome para que não se invoquem os argumentos condescendentes do "filme de família", da necessária mensagem moral conciliadora, e da eventual falta de percepção das crianças para assuntos mais "adultos": Hayao Miyazaki. Quão infinitamente distantes ficam as suas obras de animação "para a família" deste tipo de fast-food reciclada e requentada na caçarola Hollywood - e sem abdicarem em momento algum de uma forte mensagem moral.

Para além das mazelas provocadas na vista, é penoso ver um punhado de boas ideias serem tão prontamente despejadas no lixo por falta de sensibilidade e criatividade para as aproveitar, ainda para mais quando são propagandeadas com a chancela da Lego, uma empresa da velha guarda que soube adaptar-se às mudanças tecnológicas modernas mantendo o seu brinquedo inalterado - a mais valia que por sí só vai puxar para o cinema os adultos ávidos por recordarem a magia nostálgica desses momentos de infância. Debalde.
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Paulo Sousa Dias
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Paulo Sousa Dias » março 6, 2014, 1:18 pm

Olá a todos,

Raramente venho cá agora, mas como o Cabeças me pediu para dizer o que tinha achado do filme, aqui deixo apenas meia dúzia de linhas.

Fui ontem ver a versão 3D (que não me parece que acrescente grande coisa ao filme, diga-se de passagem. Se fosse em 3D IMAX, certamente funcionaria melhor).

O meu filho, com 8 anos, adorou (foi "o melhor filme que já viu na sua vida", apesar de depois me ter esclarecido que se referia a apenas aos filmes vistos num cinema...). Ele só não foi muito à bola com as cenas finais
que se passam no mundo real.
Quanto a mim, achei o filme visualmente assombroso, e com um argumento simples q.b. mas bastante eficaz. Faz uso das imensas potencialidades dos universos LEGO (não pode usar os personagens da Marvel, mas também não se perde nada com isso, acho eu), e das suas inúmeras peças que podem ser montadas e remontadas de mil e uma formas diferentes, e para quem, como eu, brincou com o LEGO desde a mais tenra infância, funciona na perfeição. E, por falar em tenra infância, achei a chegada dos LEGOS Duplos absolutamente deliciosa.

Percebo o ponto de vista do Samwise, mas tenho que discordar totalmente. Este é um filme que sem dúvida irei comprar em BD e ver e rever várias vezes com o Rui.

E essa é talvez a maior surpresa para mim: Que um filme baseado "apenas" nas peças do LEGO tenha sido feito com tanto cuidado, com tanta inteligência e com um tão grande, enorme, sentido subversivo e anti-sistema, que era algo que eu não esperava, mesmo após ter lido todas as críticas positivas na net (Rotten Tomatoes).

Para finalizar, apenas uma nota para expressar o meu desagrado por, mais uma vez, ter sido obrigado a levar com a versão dobrada em PT. Já com o Despicable Me 2 foi a mesma porcaria. Parece que agora é moda não passar os filmes de animação também na VO, o que me irrita profundamente.
Paulo Sousa Dias

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Cabeças
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Cabeças » março 6, 2014, 2:48 pm

Bom, obrigado ao Paulo Sousa Dias, por ter acedido ao meu pedido. Estava realmente com curiosidade em saber a opinião dele, pois embora não participe, como ele próprio refere, muito no fórum, é das pessoas que conheço que mais gosta e percebe também de Cinema. E estava também interessado na opinião dele para a contrastar com as outras opiniões aqui expressas.

Eu não vi este filme, e sinceramente tenho quase a certeza de que não o verei. Se a minha filha ainda fosse pequenina e me dissesse que o queria ver, claro que teria ido. Mas confesso que a mim não é um filme que me entusiasme de todo. Sim, também brinquei com o Lego quando era criança, mas não fui um especial entusiasta. Gostava mesmo era de livros, sobretudo. E das revistas de Walt Disney, claro. E de animação, no programa do Vasco Granja. E depois do Espaço 1999 e do Star T.... ok.

Não tenho todavia nenhuma aversão especial ao filme... simplesmente não me faz sentir absolutamente nenhuma vontade de o ver.

Mas por mim agradeço sobretudo as participações de todos. Têm sido muito agradáveis de ler.
Cabeças
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Lorde X
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Mensagem por Lorde X » março 6, 2014, 3:35 pm

Samwise, primeiro devo dizer que, apesar de não concordar com as conclusões da tua análise, a mesma foi exposta, como sempre aliás, com inegável brilhantismo, o qual é sempre enriquecedor!
Devido à sua densidade, a qual traz dificuldades à elaboração de uma resposta estruturada, irei tentar extrair as linhas essenciais que norteiam o teu pensamento, justificando com citações do texto em questão.

Ideia curta
"enredo com a espessura intelectual de uma folha papel vegetal"
Concentremo-nos então no filme de animação que, para mim, é o supra sumo, a obra prima de sempre: A Branca de Neve e os 7 anões. Por ter uma filha pequena, tenho visto muitos filmes (várias vezes cada…) da Disney e não só com ela e este é para mim imbatível. Isto porque, além da criatividade estonteante (quem vir o filme com atenção vai notar que aqui aparecem personagens que no futuro se irão autonomizar e ganhar filmes próprios, como o Bambi, o Tico e o Teco. Mesmo o Barrica, fiel ajudante do Capitão Gancho veio aqui buscar traços fisionómicos), foi primeiramente usada uma estrutura muito reciclada desde então, até pela própria Disney (por exemplo no Bela Adormecida, em que uma princesa também fica a dormir com o feitiço de uma bruxa e acorda com o beijo de um príncipe). Por outro lado, o filme está povoado de momentos cómicos e “videoclips” musicais, características que tem sido (e continuam a ser) constantemente usadas nos filmes de animação.
Mas se atentarmos na ideia do enredo, esta é mesmo muito simples. Se achas que uma folha de papel consegue resumir o Lego Movie, enão deixa-me dizer-te que um parágrafo chega para resumir o Branca da Neve…

Não original
"plagiando e pilhando daqui e dali”; “repetição ad-nauseum de referências cinéfilas cool mais do que estafadas (todas de identificação imediata"
Tal é usual nos filmes de animação, ou melhor dizendo, nos filmes de comédia em geral. O Shrek I, outro grande filme de animação para mim, entre muitos outros, constantemente invoca referências cinéfilas. Não vejo mal nenhum nisso. Aliás, a paródia a outros filmes é uma das formas de humor presentes, com frequência,, nos filmes de comédia, tanto que até deram origem a um subgénero, os Spoof Movies ou Parody Films . A questão é saber se as referências constantes deste filme, têm, ou não, piada. Sinceramente, não consegui apreender todas, dada a velocidade a que foram sendo disparadas para o ecrã, mas as que percebi, fizeram-me rir.

Ideias boas mas mal executadas
"remendado os retalhos com duas tiras de fita-cola”; “um punhado de boas ideias serem tão prontamente despejadas no lixo por falta de sensibilidade e criatividade para as aproveitar,” “boas intenções “; “A intenção é boa no papel, mas esfrangalha qualquer intenção de dotar a narrativa de uma lógica"
A sensação com que fiquei no final do filme foi que todas as “peças” do argumento se tinham encaixado na perfeição. Mas em que pontos concretos da história consideras que a mesma não fluiu como devia ser? Ou em que esta foi ilógica? Mais à frente mencionas que
“a narrativa metaforiza a bel-prazer as brincadeiras das crianças no plano real, ou seja, sempre que se encontrem um beco-sem saída, toca de inventar um plano de fuga no momento, de construir uma geringonça que permita escapar para outro mundo (uma mota num segundo, um submarino em dois, uma nave espacial em três), toca de fazer aparecer do nada mais personagens para a ajudar à briga, toca de misturar as peças do Star Wars com as dos heróis da DC, Batman, Mulher Maravilha, e por aí fora”
Ora, onde vês falta de lógica eu vejo um paralelismo bem conseguido com a forma de brincar que o “mundo dos brinquedos Lego” oferece. Esta faculdade de (re)inventar / (re)construir infinitamente um brinquedo, e tudo com uma velocidade de realização próxima da do pensamento, é a imagem da Lego que este filme nos tenta “vender”. E convenhamos, está bem próxima da realidade. Ontem à noite, por coincidência, estive a brincar com a minha filha com os Lego. Cada um de nós estava a construir uma casa. Quase no final, ela já com algum sono, começou a chorar pois o telhado da minha casa estava mais bonito que o da dela… Não querendo prolongar a brincadeira mais tempo, até porque a hora de dormir dela já tinha sido ultrapassada, tive que com uma velocidade similar à do Lego Movie, fazer um “transplante” de telhados, sem que as paredes desabassem…
Eu não vi o Força Ralp!, o qual segundo escreveste
“também misturava vários universos e personagens distintos de forma promíscua, mas em que os factos narrativos obedeciam quer à lógica de cada universo, quer à explicitação faseada das regras que regiam cada uma das personagens dentro desses contextos - nada era forçado ou atirado ao acaso seguindo a fórmula da "fuga para a frente""
, mas parece-me que tal diferença de lógicas advirá do facto de que neste Lego Movie, foi aplicado o principio subjacente aos brinquedos Lego, ou seja, a de que tudo é possível quando há criatividade…

Linguagem rápida / Não obriga a pensar
“aceleração da montagem até à velocidade warp estonteante em que nada se distingue no ecrã”: “fast-food reciclada e requentada na caçarola Hollywood”; “mazelas provocadas na vista”; “um pouco à laia da "desenvoltura artística" a que Michael Bay nos habituou nas sequências de acção dos mais recentes capítulos da saga Transformers: montanhas, resmas, paletes de partícula, peças, componentes e detritos, todos muito coloridos e texturados, a espalharem-se pelo ecrã em todas as direcções, filmados por vinte câmaras distribuidas em vinte pontos de vista diferentes, para que no fim caibam vinte planos "na esgalha" em dois segundos de fita editada.”
Estamos, conforme já o referi no meu post anterior, perante uma linguagem que é própria da nova geração. E esta rapidez não é necessariamente má. O Choque entre gerações não se verifica apenas entre os personagens do filme, mas também está presente na execução do filme (referências apelam a geração mais velha, enquanto a rapidez da execução apelará a uma nova geração). Aqui julgo que termos todos que ter humildade e apercebermo-nos que se calhar, também nós ficamos cristalizados no tempo, tal qual a personagem do Pai. Com frequência apercebo-me disso. Melhor dizendo, a minha filha de 4 anos e meio não deixa que eu de tal me esqueça… :mrgreen: Ou vem ter comigo e ensina-me como devo fazer para apagar as fotos no “meu” smartphone, ou vai ter com a minha mulher e explica-lhe como o tablet “dela” dá para tirar fotografias…
Eu compreendo a dificuldade que alguém que goste de cinema dos velhos tempos terá com a nova linguagem do cinema, com a edição rápida, com os diálogos caóticos, com as filmagens confusas com uma handy cam. Todos nós temos uma tendência natural para sobrevalorizar aquilo de que gostamos e subvalorizar o que não apreciamos. Mas não posso mesmo nada concordar com a classificação dos espectadores / apreciadores deste filme como alguém que, voluntária e agradecidamente, se deixa imbecilizar e descerebrar…
“imbecilização cúmplice, voluntária e agradecida por parte da plateia“; “assassinato consentido e condescendente do cérebro do espectador”; “imbecilização consentida do espectador”; “Entende-se que hoje em dia é comercialmente arriscado colocar nas salas filmes que obriguem a pensar - ou mesmo que deem tempo suficiente ao espectador para que este o possa fazer... por sua iniciativa “; “infantilização patética da figura do pai”
Eu, em nenhum momento, me senti imbecilizado por este filme… Claro que fui ver este filme com a disposição de quem vai ver um filme infantil, e um filme deste tipo costuma mesclar vários gêneros cinematográficos (acção e aventura, comédia, musical, etc.), sendo colocada a tónica na vertente cómica. E normalmente a tal está associado uma caricaturização das personagens, com uma consequente exageração de alguns dos traços de personalidade. É isso que eu noto na figura do Pai. Julgo que, por vezes, quer-se aplicar a todos os gêneros de filmes as mesmas regras e isso é impossível. Não podemos pretender 100% de plausibilidade e de realismo, dos comportamentos das personagens e das situações, em filmes de terror (eliminemos então todas as ameaças sobrenaturais, zombies, vampiros, lobisomens, porque não existem), acção e aventura (critiquemos os excessos implausíveis, senão impossíveis, nas cenas de acção dos filmes do James Bond ou do Indiana Jones, entre outros) ou comédia (critiquemos então os devaneios dos personagens interpretados pelo Woody Allen, por exemplo). No Lego Movie, o “Lorde de Negócios” do mundo real, apresenta traços que eu reconheço em muitos dos meus conhecidos e até em mim próprio. Até estarão, eventualmente, presentes em muitos dos colecionadores deste fórum. Serão pouco comuns, mas num filme os personagens naõ tem de agir como a maioria das pessoas agiria, ou como nós achamos sensato que agissem ou falassem. No caso concreto, sendo ele um colecionador, naturalmente terá muitos dos seus maneirismos, como o zelar pelo estado impecável, organizado da colecção.
Quanto ao enredo, não me parece que se baseie numa história simples que não obrigue a pensar. Antes pelo contrário, o tal conflito entre gerações e duas diferentes formas de pensar / brincar é a pedra basilar de uma história com diversas camadas / paralelismos, que não são de todo acessíveis às crianças. E parece-me que o enredo foi muito e bem trabalhado. Ao contrário do que referes, não acredito que seria boa ideia “estabelecer um paralelo entre a personagem de Emmet, o boneco que personifica "o escolhido" no mundo lego, e a personagem da criança que no mundo real brinca com ele”. Tal iria necessariamente conflituar com o paralelismo que foi feito entre o Emmet e o adulto vulgar, autómato, não criativo (as crianças, nomeadamente a do filme, são criativas). Já o paralelismo entre a figura do Pai com a do "Lorde Negócios" achei-o extremamente bem conseguido e acaba por atenuar a “crueldade” do vilão do filme e facilitar / justificar que no final se converta num dos bons, quando se apercebe que a forma de brincar anárquica, não convencional, do filho, lhe transmite uma diversão que ele, ao manter os seus brinquedos cristalizados, nunca mais tinha experimentado.

Acho que foi particularmente feliz a descrição que fazes deste filme neste parágrafo:
“Este conflito entre pai e filho gira em torno dos objectivos de cada um - enquanto que o Pai/Lorde Negócios tenciona fazer do mundo lego um lugar estático, a maquete de uma cidade que não serve para brincar, seguindo o manual de construção de cada peça à risca, e deixando depois os resultados inalterados/colados, Emmet/filho pretende libertar-se das amarras e usar as peças misturando-as, destruindo para construir diferente, seguindo o impulso e a criatividade do momento, ao sabor das aventuras que vai imaginando (em confronto, basicamente, as duas formas de brincar com o Lego na vida real)"
A dificuldade que terás tido em apreciar este filme e que eventualmente muitos terão (eu próprio, durante as primeiras cenas, senti alguma dificuldade em entrar no “espírito” do filme) advirá de ainda não te teres conseguido libertar das amarras que te ligam emocionalmente a uma linguagem cinematográfica, com a qual estes filmes de nova geração nada tem a ver… Julgo que se, porventura, deres a este Lego Movie uma nova oportunidade, conseguirás apreciá-lo melhor. Já o Fernando Pessoa, julgo, dizia: “primeiro estranha-se, depois entranha-se…“ :wink:
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