American Beauty (1999) - Sam Mendes

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rui sousa
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American Beauty (1999) - Sam Mendes

Mensagem por rui sousa » maio 15, 2013, 2:51 pm

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Muito provavelmente, «Beleza Americana» é um dos mais controversos e polémicos vencedores do Oscar de Melhor Filme na História dos Prémios que a Academia das Artes e das Ciências do Cinema atribui anualmente. E porquê? Porque se trata de um filme atrevido, corrosivo, que ataca a moral e os bons costumes da velha guarda de Hollywood e que não é um filme nada certinho como o são muitos dos vencedores dessa honra do Cinema Americano. Este filme catapultou o realizador Sam Mendes (que agora é um dos cineastas mais conceituados da atualidade - para mim o James Bond começou a ter interesse graças a «Skyfall», o mais recente filme do franchise, realizado por Mendes, e esperam-se mais capítulos com a sua assinatura), que aposta sempre em projetos diferentes, interessantes e com algum toque de "revolucionarismo". Veja-se também essa grande pérola do Cinema Independente que é «Um Lugar para Viver», com John Krasinski e Maya Rudolph, ou então «Caminho Para a Perdição», um filme que adapta muito bem as histórias de gangsters para o século XXI, e assim se comprova, para além do exemplo de «Beleza Americana», o talento e a versatilidade de um excelente realizador. Este oscarizado filme é o retrato de uma América e de uma sociedade em mudança constante, a caminhar para um mundo menos preconceituoso e mais aberto a novas tendências e a novas ideias, apesar de persistir ainda alguma intolerância, expressada por alguns personagens do filme e algumas partes da narrativa. «Beleza Americana» é uma fita com um forte argumento e uma história perturbadora, que nos faz olhar para tudo o que nos rodeia de uma forma mais atenta e menos apressada. É uma obra sobre a nossa própria vida, e a nossa forma de ser. É um filme sobre o interior do ser humano. E faz isso de uma forma tão perfeita que até me causou uns quantos arrepios na espinha...

Lester Burnham (interpretado por Kevin Spacey numa formidável performance) é o típico cidadão americano, insatisfeito com a vida e com todas as coisas vulgares e ridículas que lhe fornecem o dia a dia. A mulher (Annette Bening) e a filha (Thora Birch) detestam-no profundamente, o que faz com que este trio familiar se torne muito, mas muito disfuncional. E para melhorar as coisas, Lester conta-nos, em voz-off e logo no princípio do filme, que dentro de mais ou menos um ano, estará morto. Ele é sincero e diz a verdade na cara das pessoas, e na nossa também, de uma maneira muito cínica e arrogante. Viajamos nas imagens do seu pensamento (e naquelas famosas cenas que envolvem pétalas de rosas...) e com isto tudo, a pergunta persegue-nos durante toda a duração do filme: O que irá acontecer a Lester? Não sabemos. Mas o que o final permite descobrir é surpreendente. «Beleza Americana» mostra os problemas do quotidiano que são vistos, ainda, com algum preconceito visto por parte de algumas pessoas, retratando também ao mesmo tempo as idiotices e a forma, com particularidades muito "utópicas", que os adolescentes têm de pensar a vida e o futuro da sua existência. «Beleza Americana» retrata ainda as diferentes relações entre Pais e filhos que existem, e a forma como lidam os progenitores e as suas "crias". Numa crítica aos exageros da sociedade americana, tão irónica e tão bem escrita (num argumento que nos mostra várias personagens, com as suas histórias de vida, todas diferentes, mas tão originais e tão irreverentes) que, com a transformação que a personagem de Kevin Spacey "sofre" ao longo do filme, ao decidir mudar a sua vida com pequenas decisões no quotidiano, nos traz uma moral que nos ensina que, se estivermos constantemente à procura da felicidade (esse conceito tão abstrato e que tanta gente procura decifrar), talvez não conseguiremos aperceber-nos verdadeiramente das coisas boas, ou más, que estão à nossa volta. Porque o objetivo, pelo menos, de uma grande parte das personagens de «Beleza Americana», é serem felizes, cada uma à sua maneira. Mas nenhuma o conseguirá, pelo menos é o que parece. Todos desejamos não ser vulgares, mas no fundo, e mesmo que sintamos isso apenas dentro de cada um de nós, acabamos sempre por nos tornarmos em tal. «Beleza Americana» é um filme "estranho" e excelente que, surpreendentemente, triunfou nos Oscares. Mas a força do filme de Sam Mendes não reside no número de estatuetas que conseguiu arrecadar, e sim, na força e na "vida" que a sua narrativa contém.

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THX
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Re: American Beauty (1999) - Sam Mendes

Mensagem por THX » maio 15, 2013, 5:24 pm

Rui,

:-D salut-) yes-) ...again.

Eu apenas acrescento um pormenor a essa tua review.

----------------------------------- S P O I L E R S ---------------------------------------

A maior metáfora de todo esse filme está incluida na cena em que o aspirante a cineasta, filho do "nazi lover", mostra o filme amador á sua amiga (e futura namorada) que consta simplesmente num saco branco de plástico vazio a ser embalado pelo vento, á sorte e sem rumo. E quando ele lhe diz que essa foi a melhor coisa que ele tinha filmado até então, o público mais atento percebe que ele nada fez a não ser segurar na sua câmera e acompanhar o dito saco. A própria natureza (neste caso o vento) é que deu "vida" a uma coisa material e banal. Nenhum de nós retira alguma arte em ver um simples saco de plástico a ser usado em compras, mas e se este estiver vazio e a fazer uma aparente dança coreografada por uma brisa?

É tudo uma questão de sensibilidade e de alguns darem mais importância a certos e determinados aspectos quotidianos, que por fazerem parte da nossa rotina, são injustamente ignorados. São menosprezados apenas porque assim o queremos, pois eles estão lá, apenas não nos conseguem acenar.
Por isso é que a mulher dele no fim chora quando começa a arrumar e a cheirar as camisas do seu já falecido marido, dando importância a um pormenor tão simples como o seu odor, que com o tempo se iria perder. Ou seja, parece que de repente entrou no modo "pause" e fez uma coisa que noutro dia qualquer lhe pareceria idiota.

Essa busca, quase obsessiva, que o ser humano faz para alcançar a felicidade suprema, e que Sam Mendes tenta transmitir neste seu filme de uma forma inteligentemente súbtil, é também ela própria e simultãneamente, a razão de trazer uma maior infelicidade ao seio de uma familia, o que se veio a confirmar.

Moral da história - A rotina e a monotonia podem-nos "matar" lentamente, mas nunca deveriamos desistir do real valor de algo, ou de alguém, que ainda possa fazer parte da nossa vida.
Os meus 200 filmes inesquecíveis :
http://www.imdb.com/list/ls077088728/?s ... s077088728

JRibeiro
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Re: American Beauty (1999) - Sam Mendes

Mensagem por JRibeiro » setembro 10, 2019, 11:37 am

Artigo muito interessante sobre esta obra que passados 20 anos sobre a sua estreia, é vilipendiada por todos

https://www.huffpost.com/entry/american ... e1136902be
‎"You're not your Facebook status. You're not how many friends you have. You're not the smart phone you own. You're not the apps of your phone. You're not your fucking iPad. You're the all-planking, e-consuming crap of the world."

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