A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

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A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

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Realizador: Terrence Malick
Elenco: August Diehl, Valerie Pachner, Michael Nyqvist, Bruno Ganz, Matthias Schoenaerts, Jürgen Prochnow.

The Austrian Blessed Franz Jägerstätter, a conscientious objector, refuses to fight for the Nazis in World War II.
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by mansildv »

TIFF Review: Terrence Malick’s ‘A Hidden Life’ is astonishing

https://vanyaland.com/2019/09/06/tiff-r ... tonishing/
technicolor
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by technicolor »

Belissímo (e longo - 02:54:24 h) mas apenas, digo eu, para os indefectíveis de mestre Malick. 9/10 yes-)

A análise demolidora de Eurico de Barros (crítico que muito prezo) em total desacordo com a minha avaliação:
Se “Uma Vida Escondida”, de Terrence Malick, fosse um livro em vez de um filme, era um calhamaço de 900 páginas, prolixo e filosofante; e se fosse um quadro, era um telão, pintado em estilo enfático e empolado. É que subtileza, recato, contenção, são palavras que não constam no vocabulário artístico do autor de “A Linha Invisível” e “A Árvore da Vida”, e “Uma Vida Escondida” vem confirmá-lo, embora a fita seja, das recentes de Malick, a menos vaga e indecifrável. O que não é dizer muito, já que o realizador continua na senda do cabotinismo, seja no gesto, seja no discurso, e a afetar a mesma pose de cineasta “espiritual”. Só que há mais espiritualidade num só plano de um filme de Dreyer, Bresson ou Olmi, do que nas três horas de “Uma Vida Escondida”.


Opinião diversa (inversa?) a de By A.O. Scott no NYT

https://www.nytimes.com/2019/12/12/movi ... eview.html

Tal como eu escrevi, é só mesmo para alguns.
José
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by José »

technicolor wrote:
January 18th, 2020, 12:01 pm
Belissímo (e longo - 02:54:24 h) mas apenas, digo eu, para os indefectíveis de mestre Malick. 9/10 yes-)

A análise demolidora de Eurico de Barros (crítico que muito prezo) em total desacordo com a minha avaliação:
Se “Uma Vida Escondida”, de Terrence Malick, fosse um livro em vez de um filme, era um calhamaço de 900 páginas, prolixo e filosofante; e se fosse um quadro, era um telão, pintado em estilo enfático e empolado. É que subtileza, recato, contenção, são palavras que não constam no vocabulário artístico do autor de “A Linha Invisível” e “A Árvore da Vida”, e “Uma Vida Escondida” vem confirmá-lo, embora a fita seja, das recentes de Malick, a menos vaga e indecifrável. O que não é dizer muito, já que o realizador continua na senda do cabotinismo, seja no gesto, seja no discurso, e a afetar a mesma pose de cineasta “espiritual”. Só que há mais espiritualidade num só plano de um filme de Dreyer, Bresson ou Olmi, do que nas três horas de “Uma Vida Escondida”.


Opinião diversa (inversa?) a de By A.O. Scott no NYT

https://www.nytimes.com/2019/12/12/movi ... eview.html

Tal como eu escrevi, é só mesmo para alguns.
O crítico de cinema João Lopes teceu rasgados elogios a este filme. No site do RTP Cinemax é possível ler o que ele escreveu. Atribuiu-lhe 5 estrelas...
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by technicolor »

José wrote:
January 18th, 2020, 2:34 pm
technicolor wrote:
January 18th, 2020, 12:01 pm
Belissímo (e longo - 02:54:24 h) mas apenas, digo eu, para os indefectíveis de mestre Malick. 9/10 yes-)

A análise demolidora de Eurico de Barros (crítico que muito prezo) em total desacordo com a minha avaliação:
Se “Uma Vida Escondida”, de Terrence Malick, fosse um livro em vez de um filme, era um calhamaço de 900 páginas, prolixo e filosofante; e se fosse um quadro, era um telão, pintado em estilo enfático e empolado. É que subtileza, recato, contenção, são palavras que não constam no vocabulário artístico do autor de “A Linha Invisível” e “A Árvore da Vida”, e “Uma Vida Escondida” vem confirmá-lo, embora a fita seja, das recentes de Malick, a menos vaga e indecifrável. O que não é dizer muito, já que o realizador continua na senda do cabotinismo, seja no gesto, seja no discurso, e a afetar a mesma pose de cineasta “espiritual”. Só que há mais espiritualidade num só plano de um filme de Dreyer, Bresson ou Olmi, do que nas três horas de “Uma Vida Escondida”.


Opinião diversa (inversa?) a de By A.O. Scott no NYT

https://www.nytimes.com/2019/12/12/movi ... eview.html

Tal como eu escrevi, é só mesmo para alguns.
O crítico de cinema João Lopes teceu rasgados elogios a este filme. No site do RTP Cinemax é possível ler o que ele escreveu. Atribuiu-lhe 5 estrelas...

Obrigado José pela informação sobre a crítica do João Lopes, vou incluí-la aqui para que os eventuais interessados tenham acesso a diferentes perspectivas críticas sobre a mesma obra.
O génio de alguns grandes autores da história do cinema revela-se através da capacidade de aplicar modelos narrativos comuns, transfigurando-os e, num certo sentido, virando-os do avesso — o exemplo dos "thrillers" e melodramas de Alfred Hitchcock poderá ser uma boa referência. Outros parecem pertencer a um "género" sem mais autores: pelo menos desde "A Árvore da Vida" (2011), o americano Terrence Malick é um desses criadores solitários.
Escusado será dizer que "Uma Vida Escondida" ["A Hidden Life"], o filme que Malick apresentou na competição de Cannes/2019, prolonga essa dimensão singular — e tanto mais quanto a vibração intimista do mais pequeno gesto, do mais breve olhar, adquire no seu trabalho o peso de um acontecimento específico, ora carregado de mistério, ora abrindo para uma luz redentora.
Ainda assim, com uma diferença que está longe de ser secundária. Neste caso, Malick evoca uma personagem verídica: o austríaco Franz Jägerstätter (1907-1943), que entrou na história como um pacifista que, em plena Segunda Guerra Mundial, recusou integrar o exército nazi. Em boa verdade, isso não faz de "Uma Vida Escondida" um filme "mais" realista na trajectória do seu realizador. Implica, isso sim, um reforço da sua essencial dinâmica dramática. A saber: a celebração obsessiva das experiências individuais no interior das convulsões colectivas.
O filme esteve para se intitular "Radegund", nome da povoação das montanhas austríacas onde vive o protagonista, com a mulher, Franziska, e três filhas pequenas. O local é deslumbrante, por razões paisagísticas, sem dúvida, mas também porque Malick nos faz sentir um profundo e perturbante contraste — entre a sua energia vital e a codificação da violência (emocional e física) que prevalece no funcionamento da máquina militar de Adolf Hitler.
Será, talvez, importante sublinhar o facto de, uma vez mais, tudo isso acontecer no universo "malickeano" através de uma sábia gestão do trabalho dos actores, aqui com inevitável destaque para os intérpretes de Franz e Franziska, respectivamente August Diehl (vimo-lo, port exemplo, em "Sacanas sem Lei", de Quentin Tarantino) e Valerie Pachner ("Stefan Zweig: Adeus, Europa"). Malick é, em última instância, um cineasta do corpo, das suas configurações, desde os cenários mais secretos até aos espaços do domínio público — "Uma Vida Escondida" aí está, como uma das mais perfeitas expressões da sua visão.

João Lopes / Cinemax / RTP
.................
O cinema de Malick, com forte cunho de autor, ressurgiu após uma longa interrupção de 20 anos (de 1978 a 1998) , "renovado" e foi evoluindo para esta nova fase que divide opiniões, e de que uns gostam muito e outros nem por isso. É um cinema (poesia+vida) com uma forte componente contemplativa, pontilhado de pequenos apontamentos que conferem profundidade à "narrativa". A grande viragem terá acontecido com essa obra (prima) espantosa por vezes tão incompreendida que é The Tree of Life. Malick é um artista com uma personalidade peculiar, arredio da ribalta, curiosamente um comportamento algo semelhante ao do saudoso Kubrick, (embora sejam cineastas com estilos/obras bem diferentes), e isso causa alguma rejeição. Mas este americano genial de origem libanesa (?) é (para mim) um dos cineastas que mais inovou a forma de  fazer cinema  nos últimos 15 anos (principalmente desde The New World) sem se apoiar demasiadamente na tecnologia. O seu trabalho tem algo de visceral/profundo que é frequentemente confundido com elitismo, logo pouco comercial, e que espantosamente vai conseguindo financiamento (e ainda bem digo eu).  E este seu mais recente filme não foge à regra...

No filme em questão é interessante a forma como o nazismo chega da distante e cosmopolita Berlim (ou Viena?) a uma aldeia remota dos Alpes austríacos, um fenómeno de mobilização/alienação de duas nações com um desenvolvimento cultural acima da média europeia que eu nunca tinha tido oportunidade de conhecer a este nível tão básico da(s) sociedade (s). Nem esse isolamento o(s) protegeu ...e a igreja sempre presente, temerosa pela sua segurança e privilégios, conivente com a terrivel barbárie que estava a surgir. Na realidade acho que terão sido muito poucos os alemães e austríacos que não se deixaram levar por esse estranho fenómeno de quasi catarse colectiva e não apoiaram Hitler, e a maior parte desses opositores terá abandonado o(s) país(es) para salvar a vida.

O dia a dia da família e da comunidade da aldeia ( a nível da riqueza de detalhes com que é mostrado) fez-me lembrar de algum modo o brilhante Die Andere Heimate de Edgar Reitz (2013) que aliás faz parte de um notável conjunto de filmes e séries com 53 horas e 25 minutos de duração na totalidade :shock:
Last edited by technicolor on January 20th, 2020, 7:34 am, edited 5 times in total.
José
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by José »

De nada, Technicolor, sempre às ordens. salut-) Bem, o teu entusiasmo por este filme, juntamente com a opinião do João Lopes - crítico de cinema que eu muito prezo e que é um devoto do realizador -, deixa-me muito receptivo a esta nova empreitada de Malick. Eu aprecio muito a obra dele...
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by technicolor »

A critica de Cássio Starling Carlos no Folha de S. Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/amp/ilust ... eios.shtml

...e a de JAVIER OCAÑA no El País Br

https://brasil.elpais.com/internacional ... utType=amp
Samwise
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by Samwise »

(Ainda e só) vi os 10 minutos iniciais. E nestes 10 minutos cabem as melhores imagens que vi em todo o cinema realizado em 2019/2020, pelo menos. Não sei se o filme é ou mau (prognósticos só no fim... :-))) ), mas o aspecto visual e a cinematografia são deslumbrantes. Mesmo o gigantesco trabalho que o Deakins produziu no 1917 não está neste patamar. A fórmula de edição/montagem é aquilo que já conhecemos no Malick - não há surpresas nesse capítulo - mas as imagens... Whoaaaa!!!! Ele está a filmar um/o paraíso na terra, para depois, previsivelmente, filmar uma descida ao inferno.

- EDIT -

Estava aqui a pensar com os meu botões... o filme começa na realidade pelas imagens da Riefenstahl a mostrar Hitler como o Messias salvador junto o povo alemão, e só depois entra pelo "paraíso" adentro nos alpes austríacos. Um contraste interessante entre ideias/idealogias e imagens.
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by Ludovico »

Samwise wrote:
March 23rd, 2020, 4:22 pm
(Ainda e só) vi os 10 minutos iniciais. E nestes 10 minutos cabem as melhores imagens que vi em todo o cinema realizado em 2019/2020, pelo menos. Não sei se o filme é ou mau (prognósticos só no fim... :-))) ), mas o aspecto visual e a cinematografia são deslumbrantes. Mesmo o gigantesco trabalho que o Deakins produziu no 1917 não está neste patamar. A fórmula de edição/montagem é aquilo que já conhecemos no Malick - não há surpresas nesse capítulo - mas as imagens... Whoaaaa!!!! Ele está a filmar um/o paraíso na terra, para depois, previsivelmente, filmar uma descida ao inferno.

- EDIT -

Estava aqui a pensar com os meu botões... o filme começa na realidade pelas imagens da Riefenstahl a mostrar Hitler como o Messias salvador junto o povo alemão, e só depois entra pelo "paraíso" adentro nos alpes austríacos. Um contraste interessante entre ideias/idealogias e imagens.
Pois,para mim,se vires mais 15,30 minutos vai entrar no que melhor foi feito no cinema nesta década que passou.
Estou estive a vê-lo no cinema Trindade à uns tempos e só eu estava na sala,mais nenhuma pessoa estava lá.Vi o filme num estado de puro transe,absoluto transe cinéfilo.Eu pergunto:"Para quê premiar Parasitas em Cannes quando se tinha este filme também???".Parasitas foi um verdadeiro parasita.Ainda me faltam adjetivos para classificar como deve ser o filme de Malick.O Rui Sousa é que devia vir aqui dizer de sua justiça.Eu quando achar oportuno virei refletir sobre esta obra magna em profundidade.Só digo que mal saia para dvd,vou logo a correr comprá-lo porque acho sobre este filme aquilo que muitos pensam sobre "A Arvore da Vida",isto é,é o melhor filme da carreira de Malick até agora.Mas isso é a minha opinião,claro.
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by Samwise »

Não sei bem o que achar ou dizer deste filme, e, pelos mesmos motivos, não sei bem o que dizer ou achar por esta altura do percurso autoral de Terrence Malick, tão singular e diferenciado na sua formatação narrativa, como por vezes distante e alheio às próprias essencias e experiências humanas que pretende celebrar. Ninguém filma momentos de felicidade de forma tão "espiritual" como ele - como se tais momentos, pequenas partículas de luz no meio da escuridão dominante que é o sofrimento humano, representassem zonas de comunhão entre céu e terra, entre o humano e o divino, entre o mundano e o transcendente. Muitos são os que tentam copiar e aproveitar essa componente da fórmula Malickiana transpondo-a para os seus filmes - a maioria sem grande proveito artístico, e nenhum a chegar perto do original - até porque o mestre vai refinando a receita de filme para filme.

Em parte é isso que vejo neste A Hidden LIfe: está um degrau acima na representação artística dessa experimentação humana dos fragmentos do divino, sustentada no aprimorar técnico dos meios habituais (sempre em ultra-grande angular, sempre com a profundidade de campo e a abertura do diafragma a focar "até ao infinito", permitindo que o todo peso extasiante do cenário natural "heaven and earth" envolva e "banhe" os protagonistas). Em estreita ligação com esta necessidade de "mostrar de forma amplificada" a essência extra-terrena, está a necessidade puxar o espectador para dentro do filme - a necessidade de o fazer "estar lá", de o fazer sentir o que as personagens estão a experienciar, e sobretudo de o colocar directamente dentro das suas emoções, razões e reflexões.

Essa é em grande medida a aposta central do filme - e também a sua principal debilidade. Malick, para o fazer, abdica por seu turno de quase tudo o que é diálogos, abdica da vertente confrontatória, e abdica da continuidade narrativa necessária para que um objector de consciência possa expor as suas razões, explicar o seu ponto de vista, confrontar os seus "agressores". O que há, em vez disso, é um silêncio ruidoso (porque se dá por ele). Toda esta insubstânciação é largada em cima do espectador que, devido ao silêncio a que a personagem se remete, fica "obrigado" a reflectir e a contrapor em seu lugar. O pouco que ouvimos pela sua voz provém de leituras epistolares (entre ele e a mulher) e de pensamentos (muito) dispersos.

Entende-se a abordagem; está em harmonia com o sentido simbólico espiritual e religioso que convida à reflexão sobre alguns "grandes temas metafísicos" (como por exemplo a natureza do bem e do mal, ou popapel preponderante do amor na felicidade). Por outro lado, esta esolha dilui por completo a espessura do protagonista (digamos que aprendi mais sobre a personagem central em 10 linhas na wikipedia do que no filme inteiro), e faz esticar com alguma regularidade o tempo narrativo para lá de limites assimiláveis, criando redundâncias em cima de redundâncias, à conta da exposição repetitiva das mesmas questões ao longo das várias etapas da "caminhada" do protagonista (temos mesmo de ver todos os habitantes da pequena comunidade a virarem-lhe costas um a um? e depois à mulher?) Três horas de filme que nas mãos de um cineasta mais "económico" teriam passado a metade sem grande esforço e sem se perder nada de relevante a nível "espiritual" (mais paisagem, menos paisagem) - mas também é certo que estas "teimosias idiossincráticas" são o que definem os traços autorais de gente que depois fica na história.

Estive, em tempos, muito mais próximo de aceitar o Malick como um dos grandes autores contemporâneos, e considero o The Thin Red Line uma das mais fortes obras cinematográficas de sempre realizadas sobre a Guerra, mas o facto é que a partir de The Tree of Life, inclusive, tenho vindo a encontrar-me sucessivamente decepcionado com os seus filmes, e cada vez com maior dificuldade em vislumbrar o génio por trás das câmaras, questões técnicas à parte.

7/10
Last edited by Samwise on April 23rd, 2020, 10:01 am, edited 3 times in total.
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by Samwise »

On further investigation ( :-))) ), verifico que o grosso das filmagens "on location" foi efectuada não na região onde o protagonista realmente viveu, em Sankt_Radegund, mas algumas centenas de quilómetros a oeste, nas montanhas de Tirol. Fica a questão: terá sido escolha propositada para fins artísticos (evidente do primeiro ao último plano), ou terão encontrado dificuldades de alguma espécie na localização "original"?

Certo ou errado, o filme é esmagadoramente belo. Como disse mais acima, o Deakins levou o Oscar pelo 1917 (talvez por conta da "fluidez narrativa contínua"), mas o que se fez de fotografia no The Hidden Life está noutro campeonato.
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by mansildv »

Samwise wrote:
March 26th, 2020, 12:43 am
...tenho vindo a encontrar-me sucessivamente decepcionado com os seus filmes...
Revê o magistral Days of Heaven 😁👌
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by PanterA »

Tinha feito um hiatus ao Malick porque achava que os filmes que realizou depois do Tree of Life era difícil de atingirem tal patamar, e não sentia aquela vontade de os assistir. Talvez seja estúpido dizer mal de algo sem ver, mas dá mesmo aquela sensação que não são bem aquilo que procuro.

Mas este Hidden Life cumpre bem, mas não tão bem como prometia. Tem lá a alma e aquela maneira tão unique de como ele gosta de contar as desgraças e alegrias, mas ao mesmo tempo tem o condão de sufocar o espectador em segmentos e lições que nada ajudam a divulgar a mensagem e a componente artística. São 3h, mas com menos 30 ou 40 minutos a menos e talvez fosse mais aceitável.

Mesmo que a mensagem tivesse sido um pouco longa de mais, e talvez aproveitar esse tempo para explorar outras fronteiras de caracterização, a parte da componente artística é... spechless. Fiquei mesmo sem palavras pela maneira como aquilo que nos era apresentado. Foi uma aula de como fotografar algo perfeitamente, ainda por cima naquelas belas paisagens. Tudo tão autêntico, tudo tão próximo da realidade que fazia impressão.

7.5/10
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by mansildv »

Gostei imenso, está entre os melhores de 2019!
Acho incrível como passou ao lado dos Oscares...
Tecnicamente é assombroso e o August Diehl tem um desempenho muito, muito bom.

Está longe do maravilhoso Days of Heaven, mas leva um 9/10
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Re: A Hidden Life (2019) - Terrence Malick

Post by Ludovico »

Em meados da década de 40,em plena 2ªGuerra Mundial,na área geográfica da Austria num ambiente rural,inóspito e distante do meio urbano,mais concretamente em Redrung,um homem jovem e com familia,isto é,um homem com grandes convicções politicas é progressivamente e avassaladoramente testado na sua consciência e na sua moral.Acaba por ser vitima disso,mesmo de uma forma arrebatadora e tenaz onde o Mal ideológico arrasa qualquer noção de Bem.
“Uma Vida Escondida”,é mais do que um filme,é um milagre narrativo de enormes proporções,em todas as componentes de análise,é uma experiência sensorial cinematográfica perfeitamente engenhada.Passados somente 20 minutos de filme,apetece dar nota 10 (e o filme tem 2 horas e 50 minutos),nota máxima e isso demonstra bem a raridade de qualidade que esta obra é.Poucos são os filmes em que a pessoa sente isso e é esmagada de uma forma fulminante.
O filme é um ensaio existencial,moral,histórico-filosófico mas também ideológico e religioso sobre o que a Pessoa Humana sofre quando é desafiado ao limite máximo.
O que acontece a nós quando somos dotados de uma envergadura e intransigência a todos os limites elevadíssima.
É um filme longo mas que pode hipnotizar quem o vê,no meu caso,fiquei petrificado no seu visionamento.
Em suma,fiquei em verdadeiro transe cinematográfico.
Terence Malick é o responsável por este filme,é o responsável por uma abóboda celeste de sentimentos.Encena toda a narrativa com um poder religioso e confessional.Deus e os seus discípulos estão subentendidos e evidenciados em todo o filme de uma forma dissimulada,nas entrelinhas e isso é trabalhado de uma forma impressionante de tão realista que é mostrado.
Os desempenhos são verdadeiramente memoráveis e autênticos.Têm uma frieza de composição excecionais todos eles.O ator principal tem um magnetismo intimista quase obsessivo de tamanho arrojo.
A realização e o modo que o filme é contado oscila entre conceito de épico de imagens da natureza geográfica,(onde se evidencia a fotografia que é captada de uma maneira,ao mesmo tempo luminosa e épica)mas há ao mesmo tempo,um conceito de elaboração de um processo gradativo de partilhar o sofrimento do herói com os seus sentimentos nobres para com os espetadores.
Há pessoas que dizem que sugerem que os filmes podem mudar o Mundo.
Pois bem,acho que neste caso este filme pode mexer muito com o intimo cinéfilo,de uma maneira que antes de se ver pode-se achar impossível.
Muitos acham que Malick já fez isso em “A Barreira Invisivel” ou “A Arvore da Vida” ou noutros mais antigos mas acho que é neste que mais se comprova a tese do cinema como mudança do "nosso" Mundo.
Por curiosidade,penso como foi possível este filme perder o prémio máximo em Cannes em 2019 para Parasitas?.Parasitas é bom mas comparado com “Uma Vida Escondida” é comparar algo incomparável.
Outra curiosidade é eu ter visto este filme sozinho numa sala de cinema.Estava só eu na sala e pouquissimos filmes em anos(talvez só em A Invenção de Hugo mas aí com espetadores),pelo menos na década passada,me deu tão gozo em ver como este filme.Tive o ecrân todo para mim na sessão a que fui.
Uma terceira nota.Bruno Ganz teve com este filme um prodigioso testamento interpretativo,despediu-se de vida de uma forma especialissima.
Nota:10 em 10
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