The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

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Samwise
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Samwise »

Lorde X wrote:Samwise, primeiro devo dizer que, apesar de não concordar com as conclusões da tua análise, a mesma foi exposta, como sempre aliás, com inegável brilhantismo, o qual é sempre enriquecedor!
Devido à sua densidade, a qual traz dificuldades à elaboração de uma resposta estruturada, irei tentar extrair as linhas essenciais que norteiam o teu pensamento, justificando com citações do texto em questão.
Viva, Lorde X, agradeço a resposta cuidada ( salut-) ), à qual por sua vez responderei a seu tempo (não agora, que não tenho tempo :mrgreen: ).

Peço desculpa a todos pela "densidade" do texto - tal deve-se não ao "brilhantismo na exposição", mas ao exacto contrário: à falta de jeito para expor as opiniões de forma mais clara - sou trapalhão à brava, um aspecto que me desagrada profudamente e ao qual tentarei dar mais atenção de futuro. :oops:
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Samwise »

Lorde X, não me esqueci de ti - muito pelo contrário - mas ainda não tive o sossego de espírito que pretendia para poder responder com pés e cabeça, e como também não quero despachar as respostas, prefiro aguardar.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Lorde X »

Samwise wrote:Lorde X, não me esqueci de ti - muito pelo contrário - mas ainda não tive o sossego de espírito que pretendia para poder responder com pés e cabeça, e como também não quero despachar as respostas, prefiro aguardar.
Boas Samwise! Acho que um novo visionamento podia ser de grande auxílio nessa tarefa! :mrgreen:
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by THX »

Ora bem, vou eu agora tentar falar um pouco sobre este filme, que, verdade seja dita, já originou aqui uma conversa muito mais interessante do que eu alguma vez pensei.
Afinal estamos a falar sobre um simples filme de animação, mas que despoletou reacções muito divergentes entre o público e que estão muito bem explicadas neste tópico.

"Ó pai...estou chateado!!", "Fogo, o filme nunca mais acaba..."
Foram duas das reacções que ouvi atrás de mim durante o filme "Lego".
Uma do lado direito e outra do lado esquerdo, com uns 6 metros a separá-las. Comentários de duas crianças que, notoriamente, não estavam a gostar de "LEGO". Olhei para o lado e vi a minha mulher a dormir enquanto que eu e o meu filho continuavamos a ver a aventura que passava na tela.
No fim, enquanto saíamos da sala, eu perguntei-lhe o que ele tinha achado do filme e ele nem respondeu, apenas perguntou - "Ó Pai, quando é que vamos ver "Os Gardiões da Galáxia"??

Posso começar por dizer que tudo tem uma explicação, e que tanto o cansaço da minha maria, como as reacções dos 2 rapazes atrás de mim, ou até mesmo a do meu próprio filho, poderiam ser prontamente aqui justificadas por mim, mas não vou por aí.
Vou antes ser muito prático com um exemplo bem real que se passou comigo e com o meu filho.
É uma pequena história que traduz fielmente o espírito, a essência do filme "LEGO" :

No inicio do ano ofereceram ao meu filho de 6 anos uma caixa de legos, estou a falar daquelas caixas grandes, que custam uns bons 150,00/200,00eur, com centenas de peças. As peças estavam novas, praticamente sem uso, apenas faltavam 3 ou 4. A caixa teve de ir para o lixo pois o cartão estava com aquelas manchas pretas de humidade e bolor e cheirava a mofo.

O famoso livro de instruções (de que o filme faz tanta referência) que se encontrava no interior da caixa é tão grande e grosso como um almanaque da "Vogue". O set dá para fazer desde moto 4, jipes de exploração, tractores industriais, motas ou até "Drag cars". Trazia imensas coisas, entre elas 1 volante, e 2 conjuntos de rodas em borracha como nunca vi. No fundo acho que eu fiquei mais entusiasmado com esta oferta do que propriamente o meu filho.

Disse-lhe para ele escolher uma dessas viaturas para ambos a construirmos.
Ele queria uma mota mas eu convenci-o a montarmos primeiro um jipe, daqueles parecidos com os do "Camel Trophy", com suspensões dinâmicas e tudo. Ele percebeu que iria demorar muito a montar aquilo tudo (demorei umas boas 3h a acabar o veículo TT) e ele não demorou muito a abandonar a "mesa de trabalho". Nessa noite deitei-me ás 02h00, mas deixei o jipe pronto.

No dia seguinte expliquei ao meu filho que teríamos de deixar o jipe assim intacto durante um tempo porque tinha dado muito trabalho ao pai a montá-lo todo direitinho, como manda as "instruções".

"Então não vamos poder fazer mais nada...?" - foi a pergunta dele, com um olhar e uma voz de apertar o coração. Eu fiquei a olhar para ele e insisti que teríamos de esperar só mais um tempinho porque eu tinha acabado de construir uma coisa que não podia ser logo destruída no dia seguinte.

EU, o "Lord Negócios", é que sabia, EU é que mandava, EU é que decidia.

"Ó Pai, mas tu disseste que me ias fazer um robot...", continuava ele.
Mas "o Lord Negócios" estava determinado e não cedeu...até que no terceiro dia, após a morosa construção, ele parou para pensar e disse para ele próprio :

"Espera aí...o lego não tem cola, a ideia divertida de se "fazer legos" é exactamente o de se poder construir, brincar, destruir e voltar a construir novamente. O lego não é estático...não pode ser estático, muito pelo contrário, TEM de ser DINÂMICO, tem de ter VIDA".

Conclusão - Virei-me para o meu filho e perguntei-lhe se queria fazer um acidente com o jipe.
Ele sorriu, e não me custou nada vê-lo a "destruir" em minutos um carro que me levou horas a montar.
Neste momento o jipe virou um SR-71 A "Blackbird" ou seja...o avião dos X-MEN, como pedido.

Moral da história - não matem a imaginação de ninguém...muito menos de uma criança.
Esta é também a moral do filme.

Quanto à rapidez da acção, concordo que algumas cenas estavam muito aceleradas, mas o que eu retirei do filme, da sua ideia base, foi muito superior a esses frames psicadélicos, e ainda valorizei muito mais a história por não estar minimamente à espera de um fim WTF?? como o que vi.
Serve também como uma metáfora para as nossas vidas humanas e sociais, criticando o exagerado zelo de organização que algumas pessoas/sociedades mantém numa rotina cansativa e sem graça, quando a vida é muito mais gozada quando feita de improviso, de diferença.

Ainda hoje me arrependo de não ter tido o cuidado de guardar uma caixa com centenas de peças de "Lego". Perdi-as todas, perdi também um pouco da minha infância juntamente com elas. Não eram só "peças"...eram também memórias para mim, muitas e boas.
A principal era de que eu podia ter um brinquedo novo todos os dias, inventando coisas com a minha imaginação, criando novas personagens, novos mundos.

O filme "LEGO" é tudo isso.
Os meus 200 filmes inesquecíveis :
http://www.imdb.com/list/ls077088728/?s ... s077088728
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Lorde X »

THX wrote: O filme "LEGO" é tudo isso.
Boas THX, gostei bastante de ler a descrição que fizeste! salut-) Fez-me reviver muitos momentos da minha vida em que os Lego estiveram presentes. Também não conservei os meus Lego de infância, no meu caso devido à infelicidade de ter sido vítima de uma inundação que deu cabo da maioria dos meus pertences (praticamente tudo o que tinha guardado da minha infância, centenas de livros, etc). Identifiquei-me bastante com as dificuldades que tiveste em tentar que o teu filho brincasse da tua maneira. Dificuldades que serão sentidas em larga escala pelos pais de hoje. Aliás, hoje em dia o fosso geracional entre pais e filhos será o maior de sempre. Tendo filhos tão tarde, os pais acabam por ser muito mais velhos que os seus filhos (eu tive a minha filha quando já tinha 38 anos). Por outro lado, a tecnologia tem evoluído num ritmo avassalador...

Mas pegando na tua afirmação "o lego é tudo isso", vou tentar desenvolver algo que não cheguei a explicar bem no meu anterior post. O Lego nunca foi um brinquedo que possuísse uma história própria, uma mitologia própria, personagens próprios. Ao contrário, sempre se apropriou de outros mundos, sejam os existentes (Western americano, Safari em África, etc) seja os pertencentes a outros "universos criativos" (Star Wars, Lord of the Rings, Superherois, etc). Os Lego, se calhar, mais do que uma ideia, são uma forma, onde podem ser vazadas várias, senão todas, as histórias, vividas ou inventadas. Sendo certo que o Lego permite que essas histórias interajam, evoluam, se alterem, na medida da imaginação do (mestre) construtor.

É por isso que não posso concordar com quem critica o filme por lhe faltar ideias originais. O filme, para o bem e para o mal, é uma transposição, fidelíssima, do que os Lego são e proporcionam. É uma colagem de vários mundos, personagens e ideias preexistentes, em que é transmitida a ideia principal que norteia (ou deve nortear) o manuseio destes brinquedos: Tudo é possível a quem usa a sua criatividade.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by THX »

"LEGO"
Tudo é possível a quem usa a sua criatividade.
yes-) Acabaste de arranjar um bom sub-titulo para o filme :wink: .

E realmente a ideia a transmitir é mesmo essa, e todos sabemos que a criatividade não tem limites.
O melhor exemplo disso é a personagem do pirata que aparece no filme que parece ter sido mesmo saído da cabeça de uma criança.

Lá atrás focaste um ponto muito interessante que foi o facto de nós, pais, tentarmos sempre controlar a organização dos brinquedos dos nossos filhos. Como tu também eu estou sempre a tentar pedir ao meu filho para tentar manter sempre tudo devidamente organizado e lá ando eu a separar a bonecada do "McDonald's" para a gaveta do meio, os livros de colorir para a debaixo, e a miscelânea para a de cima.

Comprei um saco próprio da "Hot Wheels" para ele guardar exclusivamente os carros da mesma marca e tudo. Passado uns dias vou ao quarto dele e quando começo a abrir as gavetas só me apetece dizer :
"Ok...I give up!!"

Neste momento posso-te dizer que até já encontrei um gato "Tom", um rato "Jerry", um "Faísca Mcqueen", um camião do "Pingo doce", uns brindes dos ovos "Kinder" e uns bonecos dos "Angry Birds" dentro do saco "Hot Wheels". Estavam todos numa "rave".
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by nimzabo »

Vi hoje.
Penso que principalmente na primeira metade do filme tudo se passa com excessiva rapidez.
Quer a ação e respetivos cenários riquíssimos de pormenores, quer uma série de personagens que surgem passam demasiado rápido, nem dá para o cérebro processar tanta informação.
Com um bocado mais de tempo o espetador poderia aperceber-se melhor de muitas coisas.

Quanto à história achei mais ou menos.
Acho a moral da história é um bocado meh :-? .
- Mais vale cada um explorar a própria criatividade que fazer tudo como nos é dito.
As personagens também não têm grande profundidade.
Falta coração.

Tirando isso, os bonecos estão bem feitos, o filme é mais ou menos divertido e muito movimentado.
Vê-se mas não é nada de especial.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by pedrojamess »

Era um dos filmes que mais ansiava ver este ano mas devido à falta de tempo não o consegui ver no cinema porém vi-o hoje e fico contente por não ter gasto dinheiro com isto.
O Lego Movie prometia ser uma animação muito divertida, com cenários vibrantes, personagens peculiares e cenas de ação fantásticas, a verdade é que o filme tem um pouco disso tudo mas resulta numa confusão ridícula. Começo por criticar um dos pormenores que considero importantes em qualquer filme que é a história, a trama deste filme é quase nula e extremamente cliché, nem vale a pena comentar sobre a tentativa de fornecerem magia ao filme tornando-o numa espécie de Toy Story sem emoção. As cenas de ação são horríveis e uma tremenda confusão, já contava com alguma confusão nesse campo mas isto é pior do que eu esperava, foi um erro colossal a produção não decidir que rumo deveria dar ao filme, chegamos ao fim e não sabemos se visualizamos uma animação cheia de boa disposição e energia tal como os filmes da Dreamworks ou um filme de animação mais emocional como alguns da Disney/Pixar.
Os únicos aspetos positivos que consegui retirar do filme foram: a utilização de algumas personagens que apesar de serem boas poderiam ter sido mais aproveitadas e algumas piadas mas só mesmo ALGUMAS porque as restantes já foram ouvidas centenas de vezes nos filmes do género.

Lego Movie tinha bastante potencial mas perdeu-o todo num festival de confusão e numa história absolutamente fraca no entanto espero que todo o seu potencial seja utilizado na sequela e que finalmente se decidam no rumo que querem dar ao filme.

Nota: 4/10
Last edited by pedrojamess on June 1st, 2014, 1:50 pm, edited 1 time in total.
Cinema, Música e outras cenas: https://umalienaos20.wordpress.com/
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Lorde X »

nimzabo wrote: Quanto à história achei mais ou menos.
Acho a moral da história é um bocado meh :-? .
- Mais vale cada um explorar a própria criatividade que fazer tudo como nos é dito.
A moral da história, eventualmente, até está apropriada para a mentalidade das crianças e jovens de hoje...
Dizia no outro dia um amigo meu algo bem interessante, com o qual eu ainda não tenho a certeza se concordo a 100%, mas, pelo menos, terá uma certa razão.
Dizia ele que as crianças de hoje não são construtoras, mas sim meras executoras. Antigamente, frequentemente a criança tinha que construir o seu próprio brinquedo. Hoje tudo lhes é dado, cabendo-lhes a elas apenas desenvolver a destreza manual com que lidam com as "máquinas". Quando adolescente, lembro-me de passar tardes inteiras a programar jogos na linguagem Basic no Zx Spectrum, e ao mesmo tempo a tentar perceber cada um dos comandos, para ver se conseguiria fazer eu próprio um jogo. No final de várias horas, lá estava o jogo disponível para se jogar, apenas até se desligar o computador...depois perdia-se e voltava tudo ao 0... o-(
Hoje, esta "geração touch", como já ouvi ser apelidada, tem tudo ao alcance de um dedo... Nem precisam de mexer o braço inteiro...
Sinceramente não sei se isso é mau. Também terá benefícios. Mas que é preciso incutir nas crianças a mentalidade de construtor e não apenas de executor, com isso concordo em absoluto.
Por isso, acho a mensagem do filme bem apropriada, não só aos dias de hoje, como ao brinquedo Lego em si.
pedrojamess wrote:Era um dos filmes que mais ansiava ver este ano mas devido à falta de tempo não o consegui ver no cinema
(...)
As cenas de ação são horríveis e uma tremenda confusão, já contava com alguma confusão nesse campo mas isto é pior do que eu esperava
Vi o filme no cinema e as cenas de acção também me pareceram, por vezes, um pouco confusas. Mas mais do que confusas, achei-as visualmente muito apelativas, com uma edição e ângulos de filmagem dinâmicos.
Julgo que ver este filme em casa, num ecrã bem menor que o de uma sala de cinema, fará perder-se muito da sensação de deslumbramento, e que potenciará a tal confusão...
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by nimzabo »

Um aspeto positivo também pode ser visto na humildade do protagonista quanto a ser o escolhido.
Em vez de aparecer como sendo o maior o mais forte ou o mais corajoso ou o mais esperto, como sucede em tantos filmes, aparece mais como um anti-herói, alguém que foi escolhido mas não pelas razões que se esperariam ou que é mais comum de ver.
É um herói quase esvaziado de auto importância e cujo valor não depende dele mesmo.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Argaroth01 »

Lorde X wrote:Dizia ele que as crianças de hoje não são construtoras, mas sim meras executoras. Antigamente, frequentemente a criança tinha que construir o seu próprio brinquedo. Hoje tudo lhes é dado, cabendo-lhes a elas apenas desenvolver a destreza manual com que lidam com as "máquinas". Quando adolescente, lembro-me de passar tardes inteiras a programar jogos na linguagem Basic no Zx Spectrum, e ao mesmo tempo a tentar perceber cada um dos comandos, para ver se conseguiria fazer eu próprio um jogo. No final de várias horas, lá estava o jogo disponível para se jogar, apenas até se desligar o computador...depois perdia-se e voltava tudo ao 0... o-(
Hoje, esta "geração touch", como já ouvi ser apelidada, tem tudo ao alcance de um dedo... Nem precisam de mexer o braço inteiro...
Sinceramente não sei se isso é mau. Também terá benefícios. Mas que é preciso incutir nas crianças a mentalidade de construtor e não apenas de executor, com isso concordo em absoluto.
Por isso, acho a mensagem do filme bem apropriada, não só aos dias de hoje, como ao brinquedo Lego em si.
Eu compreendo a tendência para esse tipo de pensamento mas é mais uma generalização no meio de tantas outras. Imagino o que devem ter pensado aqueles que antes da invenção da imprensa passavam semanas ou meses a copiar manuscritos dos que "apenas" juntavam caracteres num tabuleiro para depois só darem à manivela e imprimirem as páginas. Valorizamos sempre mais as nossas experiências por aquilo que significam na construção da nossa identidade. É a mesma coisa com muitos dos filmes que vimos com certa idade: são mais as sensações que despoletaram (e a nossa memória de tal) do que propriamente a qualidade geral.

E apesar do acto criativo ser muito cativante, em certos países (Portugal incluído) está-se a cair num excesso tal, muito por culpa da panaceia do empreendedorismo, em que as pessoas são quase obrigadas, mesmo não sentindo qualquer vocação, a criarem algo quase para serem merecedoras de existir sequer. As coisas surgem quando e se tiverem que surgir. Os miúdos hoje em dia têm bastantes recursos e não me parece que estejam todos perdidos a serem meros executores. Para além de que o acto criativo nem precisa de grandes equipamentos: basta uma caneta e um pedaço de papel.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Lorde X »

Argaroth01 wrote: Eu compreendo a tendência para esse tipo de pensamento mas é mais uma generalização no meio de tantas outras. Imagino o que devem ter pensado aqueles que antes da invenção da imprensa passavam semanas ou meses a copiar manuscritos dos que "apenas" juntavam caracteres num tabuleiro para depois só darem à manivela e imprimirem as páginas. Valorizamos sempre mais as nossas experiências por aquilo que significam na construção da nossa identidade. É a mesma coisa com muitos dos filmes que vimos com certa idade: são mais as sensações que despoletaram (e a nossa memória de tal) do que propriamente a qualidade geral.
Bem visto! Julgo que também estará na origem uma tentativa de justificação da própria incapacidade em orientar / educar os filhos. As crianças precisam de disciplina e que lhes organizem o seu tempo. Nos dias de hoje, as novas tecnologias são um grande atrativo para elas, mas se os pais se desoneram da sua função e as deixam estar todo o dia com um smartphone, um tablet ou um PC, haverá áreas da personalidade / aptidões da criança que ficarão por desenvolver. Pessoalmente, para já, ainda não coloquei qualquer restrição à minha filha, de 5 anos, no seu uso, mas também porque o seu foco de interesses é, felizmente, muito diversificado. Mas já tenho reparado que alguns amigos meus, por falta de tempo, dedicação ou outra causa, deixam um pouco os seus filhos "ao Deus dará", o que tem levado ao aparecimento de várias insuficiências no desenvolvimento...
Argaroth01 wrote: E apesar do acto criativo ser muito cativante, em certos países (Portugal incluído) está-se a cair num excesso tal, muito por culpa da panaceia do empreendedorismo, em que as pessoas são quase obrigadas, mesmo não sentindo qualquer vocação, a criarem algo quase para serem merecedoras de existir sequer. As coisas surgem quando e se tiverem que surgir. Os miúdos hoje em dia têm bastantes recursos e não me parece que estejam todos perdidos a serem meros executores.
Agostinho da Silva dizia que "O Homem não foi feito para trabalhar, mas para criar". Claro que nem todos temos as mesmas aptidões, mas qual é a criança que não gosta de actividades que desenvolvam ou puxem pela sua imaginação / criatividade? E nós adultos? Claro que tal não se compadece com as saídas profissionais que existem...
Argaroth01 wrote: Para além de que o acto criativo nem precisa de grandes equipamentos: basta uma caneta e um pedaço de papel.
É bem verdade, mas a tendência é que os equipamentos substituam os instrumentos mais rudimentares... Noto com frequência que muitos dos jogos de tabuleiro, já existem em formato digital... Seja o jogo da memória, puzzles...até pintar já podem as crianças fazer com a ponta do dedo, deslizando-o pelo tablet ou smartphone. Daqui a alguns anos não sei se a forma mais corrente de as crianças pintarem será pegando numa caixa de lápis e numa folha de papel... Sinceramente não sei quais os efeitos que isso trará. Parece-me que tal, a juntar ao facto de muitas famílias terem hoje filhos únicos, favorecerá um maior individualismo. As crianças já não precisam de um irmão ou de um amigo para brincar a certo jogo. O computador ou a aplicação joga com eles...
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by THX »

É bem verdade, mas a tendência é que os equipamentos substituam os instrumentos mais rudimentares... Noto com frequência que muitos dos jogos de tabuleiro, já existem em formato digital... Seja o jogo da memória, puzzles...até pintar já podem as crianças fazer com a ponta do dedo, deslizando-o pelo tablet ou smartphone.
O meu filho tem acesso livre ao meu smartphone e ao tablet da mãe (mas tem de saber pedir como deve ser antes...), pede-me por vezes para ver as dicas dos seus jogos no "YouTube" no meu portátil...mas Lorde X acredita que ele mesmo assim dá mais valor a que eu jogue com ele o tradicional "Jogo do Galo" feito manualmente por ele no infantário (feito com 1 cartão pintado, palhas de plástico cortadas e coladas, e tampas de garrafões de água de 5Lt).
Daqui a alguns anos não sei se a forma mais corrente de as crianças pintarem será pegando numa caixa de lápis e numa folha de papel... Sinceramente não sei quais os efeitos que isso trará.
Mais árvores :-))) !!
Parece-me que tal, a juntar ao facto de muitas famílias terem hoje filhos únicos, favorecerá um maior individualismo. As crianças já não precisam de um irmão ou de um amigo para brincar a certo jogo. O computador ou a aplicação joga com eles...
Mas não é a mesma coisa...
As crianças acabam por se chatear de brincar com essas coisas com o tempo.
No inicio existe uma febre e um desejo de experimentação, tal como o primeiro cigarro, mas depois acabam por enjoar e por preferir brincar com outras coisas.

Repara no seguinte, o meu filho para além do acesso ao smartphone e tablet também tem uma PSP e uma PS3 no quarto, mas se lhe perguntares se ele prefere ir ao parque jogar bola ou ir a casa do primo para brincar com ele, ele nem hesita em escolher estas últimas opções.
Tenho a certeza que ele agora trocava tudo por um mano/a...mas isso fica mais dispendioso nos dias de hoje, a verdade é mesmo essa o-( .
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Lorde X »

THX wrote: O meu filho tem acesso livre ao meu smartphone e ao tablet da mãe (mas tem de saber pedir como deve ser antes...), pede-me por vezes para ver as dicas dos seus jogos no "YouTube" no meu portátil...mas Lorde X acredita que ele mesmo assim dá mais valor a que eu jogue com ele o tradicional "Jogo do Galo" feito manualmente por ele no infantário (feito com 1 cartão pintado, palhas de plástico cortadas e coladas, e tampas de garrafões de água de 5Lt).
Isso quer dizer que está a ser bem educado por vós! yes-) Infelizmente já tenho visto pais a deixarem os filhos "colados" aos pcs todo o dia... Se calhar não tem disposição ou paciência para pegarem num jogo de tabuleiro para jogarem com os filhos. Isso dá trabalho... É mais fácil ligar-lhes o PC...
THX wrote: Mas não é a mesma coisa...
As crianças acabam por se chatear de brincar com essas coisas com o tempo.
No inicio existe uma febre e um desejo de experimentação, tal como o primeiro cigarro, mas depois acabam por enjoar e por preferir brincar com outras coisas.
Por acaso isso sucedeu com a minha filha e com os jogos que tenho instalados no meu smartphone para ela jogar. No início todos os dias se lembrava e me pedia emprestado para jogar. Agora já se fartou um pouco e passam-se vários dias sem se lembrar disso...
THX wrote: Tenho a certeza que ele agora trocava tudo por um mano/a...mas isso fica mais dispendioso nos dias de hoje, a verdade é mesmo essa o-( .
E também chega uma altura que tal já não é possível... por parte da mãe...
No nosso caso fomos adiando, como muitos casais, até ter a vida mais estabilizada. Se voltasse atrás, não teria esperado tanto. :-( E teria tido mais filhos.
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Re: The LEGO movie (2014) - Phil Lord, Christopher Miller

Post by Psico_Mind »

THX, o teu filho começa a ser um caso raro.

O meu primo esteve cá no outro dia e passou o dia todo no telemóvel ( já tem um smartphone ) a jogar isto e aquilo. E muitos vão pelo mesmo caminho.

Mas a personalidade também ajuda. No meu tempo só havia aquelas consolas de cartucho ( as que surgiram a seguir ao Spectrum ) e mesmo assim já tinha amigos que preferiam ficar em casa a ir para a rua brincar.
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